Magic e Eu - A História de um Jogador

       

Por: Kami em 03/03/13 13:38 | 9 comentários / 4,519 visitas

Havia postado este texto há muito tempo na seção de artigos, mas resolvi resgatá-lo e postar no blog, atualizando alguns dados e corrigindo eventuais erros. Espero que gostem.

Magic e Eu

Jogadores de card games e RPG costumam escrever bastante, e isso tem várias razões. Talvez se deva à tendência acadêmica que eles tenham, ou mesmo o fato de terem que ler e estudar muito para melhorar seu jogo. Costumo escrever muito, e não só sobre Magic. Escrevo sobre coisas aleatórias, fatos que aconteceram, ideias que tenho, cursos que fiz. Via de regra acabo apagando estes textos depois de algum tempo, e é o que iria acontecer com este, mas decidi postá-lo aqui na Liga.
Procuro falar sobre algumas das minhas experiências como jogador, algumas das coisas que aprendi e também cito em que momentos da minha vida esses fatos se deram. Digamos que é um report da minha carreira, passando por todos os estágios (descoberta, fase de token, aprendizado, profissionalismo, auge, abandono, nostalgia) e pelos diversos tipos/estilos de jogador (Spike, Timmy, Johnny, Vorthos etc). Sim, acredito que esta divisão de tipos não é estática, e um jogador pode vivenciar vários delas, ao mesmo tempo ou não. Para mais detalhes sobre este assunto leia este texto do senhor Mark Rosewater.

Nenhuma história é igual, cada um teve ou terá experiências diferentes, mas alguns pontos podem ser comuns a alguns e acho que muitos se encontram neste momento por alguma das fases que passei, ou então já passaram por elas e tem uma outra visão, ou ainda tiveram outras aventuras sem relação alguma com o que vou apresentar. O objetivo é estimular os jogadores mais novos e apresentar um pouco do que é jogar um card game e o que ele pode te proporcionar. Enjoy.

O Inicio
Meu primeiro contato com o MTG foi entre 1994 e 1995, na bienal do livro de São Paulo. Já havia ouvido falar deste jogo alguns meses antes, meu irmão mais novo havia ouvido falar de um tal de RPG e comentara comigo, mas até então não tinha intenções de me aprofundar. Tinha apenas 11 anos, gostava de ler, e meus pais me convidaram para ir à Bienal. Ganhei R$15,00 para gastar, mas não sabia ao certo o que comprar, o mundo da leitura era muito amplo e não conseguia me prender a nada muito específico. Não gastei nenhum centavo até perto do final do passeio, pensando sempre que iria surgir algum livro mais interessante. Pouco antes de ir embora finalmente encontrei algo que chamasse a atenção: um stand de tamanho médio, repleto de livros e gibis com imagens bacanas. Passei algum tempo olhando até entender que eram livros de RPG, e logo chamei meu irmão. Ficamos uns vinte minutos admirando tudo, até que chegou a hora de partir. Ambos estávamos com o dinheiro ainda, e seria a última oportunidade de gastar. Eramos crianças, e precisávamos gastar. Uma pena, era insuficiente para comprar sequer um livrinho daquela tal de Devir, era tudo muito caro. Mas rapidamente apontei para uma caixa que me chamou atenção. Pareciam maços de cigarro, mas certamente não era o tipo de produto que uma livraria comercializava. Magic, estava escrito. Seria aquele jogo de cartas? Sim, era, meu irmão confirmava. Custava algo em torno de R$10,00 o maço e queriamos comprar logo dois, um para cada um.
- Não, comprem um só. Não vão gastar dinheiro comprando jogo repetido. - Sentenciou meu pai.
Sem outras alternativas, comprei um pacote de miniaturas de chumbo de Star Wars (que na época eu também nem sabia o que era, mas achei as figuras metálicas interessantes) e deixei as cartas para meu irmão, que entendia um pouco melhor. Na mesma noite fomos a uma cantina italiana e abrimos o maço de cartas lá mesmo. A primeira vez que senti o aroma inconfundível de carta nova. Demoramos um pouco para abrir o saquinho que envolvia as cartas e assim que conseguimos passamos uma por uma, lendo tudo, até os textos em itálico. Depois de um tempo ouvi meu irmão falando alto, para todo mundo ouvir:
- Uma rara! - meu irmão mostrava todo contente a sua Encarnação Pessoal.

Na época não haviam símbolos de edição com indicador de raridade, mas nem precisei perguntar para ele o porque dessa carta ser rara. Um avatar 6/6 com uma espada brilhante na mão só poderia ser bom, não havia nenhuma outra carta tão forte entre os que tiramos. Fora isso lembro poucas das cartas que vieram, apenas Fábrica de Mishra, um Grimório Silvestre, um Instilar Energia e um Veneno. Jogamos várias partidas naquela noite, e eu também me interessei muito por aquele joguinho. Decoramos o manual de regras, e queríamos mais cartas.

Uma época difícil se iniciou. Não sabíamos onde comprar mais cartas, e se soubéssemos não teríamos dinheiro suficiente. Parecia que o jogo iria morrer para nós. Passou-se cerca de seis meses até que vi rolando em minha classe uma revista sobre RPG. Na contracapa uma propaganda gigantesca sobre uma loja, a Forbidden Planet. Pedi para dar uma olhada naquela tal de Dragão Brasil e na mesma semana comprei uma na banca. Tudo estava lá: listas de vários maços de cartas, que eu já sabia que se chamavam decks, e pacotinhos menores. Haviam outros tipos, e não só aquele vermelho e dourado que havíamos comprado que se chamava Quarta edição. Homelands, Ice Ages, Fallem Empires...

- Legal, vamos lá comprar! Onde fica? - meu irmão perguntava eufórico quando mostrei o anuncio para ele.
- Num tal de Shopping Pompeia Nobre - respondi - Nunca ouvi falar...

Na época Shopping era só o Center Norte. Não conhecíamos nenhum outro. E agora? Pedi para minha mãe nos levar, mas ela disse que era muito, muito longe. Meu pai também se recusou. Estávamos no escuro, mais uma vez. E ainda não havíamos resolvido o problema da falta de dinheiro. Eu estava ansioso, queria mais cartas, queria poder jogar. O que fazer? Rapidamente pensei em uma solução, mas demandaria muito tempo.


Primeiros Passos

Dia 25 de Julho de 1996, um dia antes do meu aniversário. Minha mãe, como sempre, veio toda contente e disse:

- Então, o que vamos fazer amanhã?
- Eu quero ir no Pompeia Nobre!
- respondi rapidamente.

Ela já sabia o que isso significa, e não podia contestar. Era meu aniversário! Reuni tudo o que tinha, os R$40,00 que havia acumulado e mais R$30,00 do presente de aniversário e fomos logo pela manhã, toda a família reunida. Depois de muito se perder, chegamos em um lugar vazio, com muitas lojas fechadas e outras em construção. Parecia uma casa mal assombrada, um shopping fantasma. Lá no fundo, do lado de um quiosque-lanchonete, estava ela. Em duas mesas montadas na porta havia um grupinho jogando Magic. A primeira carta que vejo depois de muito tempo. Entramos na loja e de cara vi um dragão de chumbo gigantesco (20 cm parecia algo muito grande na época). Fui para o balcão e a coisa que mais me lembro naquele dia, sabe-se lá por qual motivo, é que o vidro dele estava quebrado.

- Quero isso aqui - pedi para o atendente, escorregando sobre o balcão com vidro quebrado uma lista que havia escrito horas antes.

Dois decks, alguns pacotinhos de cartas, 2 folhas de pasta para guardar as cartas mais preciosas. Era tudo. Um pouco de homelands e quarta edição e muito Ice Ages. Em seguida fomos a um restaurante para almoçar, e no carro mesmo já fui abrindo as cartas. Lembro de pouca coisa, mas no final do dia já tinha dois pequenos decks montados, um com Serpente Terrestre de Craw e a já lendária Encarnação Pessoal, e o outro com elfos e Abelhas Assassinas. Adorava cartas da cor verde, ficava muito decepcionado quando apareciam cartas de outras cores nos boosters.

Jogamos insanamente naquele dia, e mau podíamos esperar para a próxima compra. Mais algum tempo e chegou o aniversário do meu irmão, e o ritual se repetiu. Desta vez compramos muito Alianças, parecia algo promissor, e começamos a entender a mecânica de lançamentos das edições. Não era mais um jogo estático, ele era vivo, com renovações de tempos em tempos. As coisas ficaram ainda mais interessantes. Seguiram-se os anos e os aniversários: Miragem, Visões e Tempestade.

Dois amigos de infância também começaram a jogar, um deles montou um poderoso deck de goblins com Goblin King e Goblin Shire, ganhando mais para frente as adesões de Recrutador Goblin e Lacaio Goblin. Nesta época fiz meu primeiro splash: coloquei algumas montanhas no meu deck e 2 Eternal Warrior. Eu realmente não entendia muito de regras, e achava que a criatura encantada por Guerreiro Perpétuo podia atacar infinitamente durante um mesmo turno, já que ela não era virada durante o combate... Bons tempos.




Timmy: este tipo de jogador quer experimentar e vivenciar algo. Ele joga Magic por causa das sensações que tem quando jogando, joga simplesmente por jogar, para se divertir acima de tudo. Um Timmy usa cartas e decks que ele gosta, que geram comentários legais, cartas que fazem seus amigos rirem. Podem variar desde jogadores que gostam de criaturas grandes e poderosas, até aquele jogador casual que gosta de passar um tempo divertido com seus amigos.


Jogando na escola

Aos poucos fui mostrando as cartinhas para meus amigos de escola. Ao longo dos meses eles foram se interessando, alguns já jogavam ou conheciam RPG. Fui revendendo as cartas que não usava para eles, e assim conseguia mais dinheiro para comprar cada vez mais decks e boosters na Forbidden. Cheguei a gastar R$180,00 de uma única vez, uma verdadeira fortuna para uma criança na metade da década de 90.

Cada um foi se especializando em um tipo de deck, afinal eu não tinha tantas cartas assim para passar. Alguns usavam a poderosa Serpente Terrestre Escamada, um mais afortunado tinha um único Vampiro de Sengir - e sonhava em ter o Barão Sengir - e outros começavam a montar um proto-burn. Mas comecei a ver as deficiências destas cartas e acabei preferindo cartas alternativas. Não sabia porque, mas sempre que usava criaturas grandes assim dava tudo errado. Seriam as criaturas grandes e pesadas piores do que as criaturas rápidas e leves? Custei a entender alguns conceitos básicos, até porque o jogador mais experiente da escola era eu, não tinha com quem me aconselhar.

Meu primeiro grande deck veio com Tempestade Elfos de Llanowar (que eu detestava por achar a imagem muito feia), Elfos de Fyndhorn, Fireball, Dragão do Relâmpago... Tudo que eu gostava junto. Outro fato importante nesta época foi a Adaga, uma loja de card games que fiquei conhecendo a partir de um pequeno anuncio na Dragão Brasil. Era bem perto de casa e conseguia trocar ou comprar boa parte de minhas cartas lá, passava horas devorando as tabelas de preços das revistas para tentar não tomar prejuízo em trocas. Mas não tinha jeito, na hora da negociação eu me apavorava e sempre saia perdendo. Mas, infelizmente,alguns anos depois a Adaga acabou fechando.

Percebi que os elfos davam um gás extra no jogo, e em geral conseguia baixar minhas mágicas e criaturas rapidamente. Em geral eu ganhava dos demais decks do "ambiente", a única coisa que eu temia eram os aterradores Círculos de Proteção. Nessa época alguns dos principais conceitos, como card advantage, curva de mana e aceleração foram se desenvolvendo de maneira tímida.

Fortaleza e Êxodo se passaram nesse período. Menção Honrosa para o Phyrexian Dreadnought que tirei no booster e tentei usar de qualquer maneira, afinal devia ser a criatura mais poderosa de toda a história do Magic, jamais havia visto uma 12/12! Mas nunca conseguia colocá-lo no jogo, e acabei vendendo por R$3,00.

Fireball de 20 em você!

Saga de Urza foi a melhor coleção de todos os tempos. Várias cartas bombásticas surgiram, como Academia Tolariana, só para citar uma das mais icônicas na época. Mas uma outra carta estava na minha mira: Sacerdote de Titânia. Uma criatura que se encaixava como uma luva no meu deck, maximizando os efeitos da minha Fireball e aumentando o dano que minhas Abelhas Assassinas causavam. Por sorte nos poucos boosters que consegui comprar tirei duas delas e consegui as outras duas trocando com colegas, que já compravam boosters em pouca quantidade. Pronto, meu deck estava feito. O famoso Elf-ball em sua versão mais primitiva, matava com uma Bola de Fogo por volta do sexto turno, usando a Sacerdote de Titânia, Patrulheiro Quirion e Perscrutador da Fenda do Céu. O deck se tornou imbatível, ninguém conseguia pará-lo. De repente todo mundo começou a correr atras das Sacerdotes para copiar o deck, mas eu sempre estava um passo a frente. Comecei a colocar outras cartas para quebrar as Sacerdotes adversárias e me manter no topo. Uma época de gloria, que só aumentou conforme foram aparecendo Legado e Destino de Urza, já que eu monopolizava as Sacerdotes do "ambiente" e as vendia ou trocava com vantagem (mas põe vantagem nisso) e com isso consegui muito capital para adquirir as cartas mais fortes dessas novas coleções e começar montar decks mais competitivos (na época não havia net-deck, mas pode-se dizer que fui no boca-a-boca-deck, e sabia mais ou menos o que estava jogando no mundo competitivo). Sei que é feio, mas enfim... Acabei fazendo. Era uma época gostosa em que Reabastecer e Pergaminho Amaldiçoado reinavam.

Mascara de Mercadia foi um bloco morto para mim. Com a transferência de alguns alunos, perdemos metade dos players e o jogo acabou mixando. Continuava comprando, jogando, vendendo e trocando, mas não com a mesma intensidade. A única coisa que realmente vale mencionar daqui foi a compra de meu primeiro booster box (Nêmesis). Também consegui várias das cartas que considerávamos Top na época, como os avatares de profecia. Eu não vendia um Avatar da Mágoa por menos do que uns vinte ou vinte e cinco reais, não adiantava chorar!

E o tempo foi passando e o Magic sendo esquecido, até que chegou invasão e a única carta que peguei foi uma que veio de brinde na Dragão Brasil. Não havia mais com quem jogar, o Magic não tinha mais graça. Algum tempo depois o filho de um amigo do meu pai disse que jogou Magic por um tempo, mas desistiu, e prometeu me dar as cartas que ele tinha. Dito e feito, algumas semanas depois recebi uma mala de viagem com cerca de 6.000 cartas. Sim, era tudo crap, alguém já o tinha rapelado, mas para mim estava bom. Só de Sacerdotes tinha uns 12, dava para montar três decks completos para a molecada. Vi carta por carta na lista de preços da Dragão Brasil, a mais cara realmente não passava de uns R$8,00, mas o volume impressionava. Infelizmente, essas cartas acabaram enterradas em um canto do armário por muito tempo, pois não havia com quem jogar, e acabei vendendo tudo mais tarde a preço de banana.

Recomeço

Atenção: esta e a próxima seções não são sobre Magic, mas é interessante pois trata de emoções e situações que acontecem ao se aprender e jogar qualquer card game e achoimportante para o desenvolvimento da história. Leia por sua conta e risco.

Já era adolescente, e continuava me interessando por cartas, mas pouco acompanhava. Vez ou outra desenterrava o que havia restado do meu tesouro para ficar apreciando e guardá-lo em seguida. Até que me mudei para um apartamento novo, e logo descobri que a galera de lá jogava card game! Mas um outro jogo... Pokemon. Sim, isso mesmo, Pokemon. Achei ridículo o pessoal de 15 a 18 anos jogando isso, e fiquei meio que de fora. Depois de alguns meses acabei comprando umas cartinhas e montei um deck para não ficar de mãos abanando quando fossem jogar, caso contrário ficaria apenas comendo pizza e olhando. O jogo era relativamente simples, e o pouco que tinha jogado de Magic me ajudava em muito. Me chamaram para um campeonato em uma loja e acabei chegando em segundo com meu deck de Blastoise / Articuno, ganhando meia booster box.

Percebi pela primeira vez eu poderia ser bom em algo, realmente bom, e ainda poderia ganhar dinheiro com isso. Mesmo com o preconceito que tinha com este jogo, e mesmo sabendo que iria enfrentar muito mais preconceito ainda, entrei de cabeça. Participei de outro campeonato, ganhei e virei líder de ginásio da água (LOL), levando mais alguns boosters. Uma liga foi elaborada e disputávamos infinitas partidas todos os fins de semana. Ganhei inúmeros campeonatos e fui convidado para representar esta loja, junto com outros dois colegas, no maior campeonato que jamais havia sido realizado deste jogo – aquele que seria o segundo Real Masters, a ser disputado no EIRPG. Este torneio representaria o Outono, sendo que o primeiro Real Masters (summer) havia sido conquistado por um jogador que eu conhecia só de vista, o Carlos Rocha.

Meu primeiro torneio grande. Acabei montando um deck meio torto pois não conhecia bem o ambiente que iria enfrentar. No primeiro dia fui razoavelmente bem, e passei para o Top 8. Fiquei extremamente contente, mais três partidas e o título seria meu. Mas o pior aconteceu, logo às dez da manhã do segundo dia, perdi nas quartas de final para um mirror, o único deck igual ao meu em todo o campeonato. Fiquei extremamente decepcionado, pois sabia que meu deck era um pouco mais bem montado que o do oponente e que tinha vantagem na partida, a única razão que conseguia conceber para a derrota era ser um player inferior ao meu adversário. Nem fiquei para o final do evento, voltei para casa e dormi. Só soube dias mais tarde que o campeão havia sido o Paulo, colega do Carlos campeão da primeira edição.

Apesar do sexto lugar, no fim de semana seguinte fui elogiado na loja em que jogava, o que aliviou um pouco a horrível sensação que tinha, mas mesmo assim passei um tempo meio deprimido. Comecei a vender um pouco das minhas cartas, e comprar outras para revender novamente e acabei me tornando um mini dealer. Os meses foram se passando e saiu o anuncio do Real Masters Winter, que iria acontecer no dia 25 de Julho, véspera do meu aniversário – essa data me persegue. Quinze dias antes do evento comecei a me preparar muito, não queria perder novamente. Visitei a Devir por duas vezes - era completamente fora de mão, não podia ir a toda hora - e estudei os decks presentes. Elaborei uma lista extremamente defensiva com Steelix, Chansey e Muk, talvez pelo medo da derrota. Transportando para o mundo do Magic, se é que é possível, usei uma espécie UW hard control. Anulações de poder, remoções, criaturas pesadas, tudo isso. Fiz um consistente 6-1-1, perdendo apenas para o Carlos Rocha, numa especie de Zoo, e passei para o Top 8 com tranquilidade. O maior problema viria a seguir, já que a grande maioria dos jogos eu ganhava por tempo no 1-0. Não tenho a menor ideia do que aconteceria em seguida, já que não haveria tempo limite.

Ganhei as quartas de final e a semifinal até que rápido, tive um pouco de sorte no emparelhamento. Aprendi naquele momento que emoções podem ganhar jogos, pois meus adversários estavam muito mais nervosos que eu, e me aproveitei disso. A seguir recebi a pior noticia possível, meu adversário seria o Carlos, que já havia conquistado uma edição deste torneio e foi o único deck que conseguiu me bater. Ok, o vice campeonato não era ruim, mas eu queria aquele troféu. Estava realmente muito nervoso, acho que foi o momento mais tenso que tive como jogador. Consegui levar para o match desempate por conta de uma mão horrorosa de meu adversário, e eu literalmente tremia. A partida começou já perdida, tomava altas porradas e não tinha como fazer nada. O Carlos detonou o deck dele atras de mais e mais poder de fogo. Lá estava eu, por uma criatura da derrota (ele havia destruído cinco já) e sem condições de atacá-lo. Fiquei longos turnos pensando no que iria fazer em seguida, usando todo o tempo disponível, até que veio a solução. Comecei a repassar o jogo todo mentalmente, e vi que meu oponente devia ter em torno de 12 cartas no deck, e eu 20. Essa poderia ser a única alternativa, mas não poderia pedir para contar a quantidade de cartas para não dar bandeira. Segurei o jogo ao máximo, trocando as criaturas defensoras, prevenindo e curando todo o dano que conseguisse. Por muitas vezes fiquei a 10 de HP da derrota (o equivalente a 1 ponto de vida no Magic), mas fui tocando o barco. O jogo se prolongou por muito tempo, com os dois players usando todo o tempo limite das jogadas. Em determinado momento ele sacou minha estrategia e começou a contar as cartas do deck, cemitério, em jogo... Três turnos... Dois turnos... Último turno, eu totalmente detonado, sem mais nada a fazer, passei. Se a última carta dele fosse uma energia (equivalente a terreno no magic) eu perdia, caso contrario eu conseguiria. Ele comprou e ficou parado olhando a carta por um minuto. E então apertou minha mão e disse:

- Parabéns, agora você entrou no clube.




My precious.



Eram onze da noite no salão da Devir, só sobramos nós dois, a juíza Camila e o cara que ia fechar a porta, já não aguentava mais, nem lembro o que aconteceu depois. Ganhei uma booster box e meia, o que renderiam cerca de R$400,00, o titulo e o troféu, me sentia realmente um profissional. Hoje em dia sei que esse Real Masters não é aquilo tudo e poderia ser considerado um campeonato intermediário entre regional e nacional, mas naquele momento era mais que um título mundial para mim.

Com as cartas que ganhei, consegui fazer uma boa grana, e aquele circulo vicioso da escola voltava: comprava mais, para vender mais, tirar um lucro. E no pokemon o spread com que você trabalha é muito maior que o do Magic, e acabei lucrando realmente muito com o passar do tempo. Consegui comprar Playstation 1, Game boy advanced, Dreamcast e mais para frente até um Playstation 2.

No final do ano veio o Real Masters Spring. Ganhei do Carlos novamente nas quartas de final, mas acabei perdendo na semi. Mas o resultado me deixou muito contente, havia participado dos três maiores torneios realizados até então, e consegui três top 8.




Spike joga para provar alguma coisa. Spike procuram encontrar a nova carta broken, entender a mecânica do jogo e das cartas, afinar e aprimorar listas, estudar o metagame e ganhar ? principalmente ganhar.



Nacional

Dezembro de 2002, campeonato nacional. Decidi mudar de deck, o meu já era muito manjado, mas nunca havia jogado com nada diferente. Pensei muito a respeito, em todos os decks que iriam aparecer, todas as fraquezas e pontos fortes que eles teriam. Fui procurar nas cartas obscuras que tinha, precisava achar algo novo, uma nova carta, um novo deck, uma nova estratégia. Passei semanas montando deck atrás de deck, um mais sem sentido que o outro, mas quase todos trazendo aspectos novos com os quais nunca tinha trabalhado. Acabei encontrando uma carta que ninguém usava (Crobat), tanto que custava algo em torno de R$3,00 o foil. Um deck totalmente rogue, o único de sua especie em todos os campeonatos que já havia participado e que participaria no futuro, mas mesmo assim abracei a causa e fui dar a cara a tapa. Não podia treinar muito, pois o deck tinha varias techs que eu não queria mostrar, e só joguei algumas poucas partidas na loja perto de casa.

- Você é louco! Esse deck é uma merda! - foi o que ouvi antes de começar a primeira partida de treinamento.

Acabei chegando em terceiro lugar no campeonato caseiro com uns 14 participantes daquela tarde, um resultado mediano. O deck não rodou direitinho da forma que imaginei, mas vi que poderia dar certo. Refinei um pouco mais a lista e depois parti para os testes de selado, já que nunca havia jogado um (não era muito comum na época). Peguei algumas noções básicas do Magic - curva de mana para as criaturas, remoções, bombas - e transportei para o Pokemon, mas não poderia fazer muita coisa além disso, seria a primeira experiência de todos neste tipo de torneio.

Já no Nacional, no salão da Devir, começamos as primeiras 6 rodadas de selado. Usei um deck de criaturas pequenas com bom custo beneficio, a tática padrão, e deu razoavelmente certo, fiz 4-2 fechando o dia em decimo-alguma-coisa graças aos critérios de desempate. No segundo dia, logo na primeira partida, meu deck rogue mostrou a que veio. Depois de comentários desrespeitosos do meu primeiro oponente e gente olhando torto nas mesas ao lado abri o 1-0. E assim foi ao longo do dia, fazendo um expressivo 5-0 até a ultima partida, contra o Carlos. Ambos já estávamos classificados, e quase certamente iriamos cair em chaves diferentes, então estávamos tranquilos para fazer um verdadeiro amistoso na mesa 1, que acabou empatado. Nas quartas de final e semifinal passei com relativa tranquilidade, e fui enfrentá-lo novamente, na final. Apesar de no jogo anterior eu ter escondido minha tática, ele sacou como meu deck funcionava, e conseguiu fechar um 2-0, me deixando com o vice. Não estava triste, muito pelo contrário, tinha uma historia para contar. Uma ideia na qual ninguém acreditava, e que me levou a final do nacional fazendo 7-1-1 com o deck, e passei a ser respeitado no meio como deckbuilder. Muitos campeonatos se seguiram, incluindo os 4 Real Masters daquele ano (um segundo lugar, um quarto e outro top8), mas não houve nacional no ano seguinte devido a transferência dos direitos do jogo da Wizards para a Nintendo, o que me deixou um pouco decepcionado, e acabei largando mão de vez. Já havia conseguido o que queria, um titulo importante, uma boa presença no nacional, respeito e uma boa renda durante aqueles anos, achei que era hora de parar.




Para Johnny Magic é uma oportunidade de mostrar algo ao mundo sobre ele mesmo, como ele é criativo ou esperto. Um Johny é focado na customização do jogo, neste caso Deck Building não é somente um aspecto do Magic, mas sua própria essência.


Em 2005 (ou seria 2006?), no nacional que iria acontecer no EIRPG, apesar de não encostar em uma única carta há mais de um ano, fui convidado pelo próprio Carlos a jogar. Eu tinha vaga por ranking ainda, e pensei "por que não?". E lá estava eu na disputa mais uma vez, sem ter a menor noção do ambiente. Um dia antes dei uma estudada no que estava rolando no farofão e me assustei: não conhecia praticamente nenhuma carta, era tudo novidade. Nos reunimos no final do farofão e o Carlos explicou a situação:

- Sei que você está sem jogar, mas seguinte, tenho três decks e posso te emprestar um deles, é só escolher.

Acabei pegando o deck que achei mais simples de pilotar (Kingdra), e fui pras cabeças. Para minha surpresa consegui passar para o Top 8 e no emparelhamento quem eu pego logo de cara?

- Ei, se você me vencer com meu próprio deck vai ter treta ? disse ele brincando.

Passei para a semifinal e acabei perdendo a viagem para a Disney (buááááaá) e a vaga no mundial, mas achei que já estava muito bom para um jogador enferrujado como eu. Essa foi minha ultima partida sancionada.

Aposentadoria

Estava no meio da faculdade, tive que deixar o jogo de lado. Vendi quase tudo que tinha, fiquei com uma ou outra carta de Magic só, e consegui juntar um bom dinheiro que iria financiar parte dos primeiros alugueis, e acabei indo morar perto da universidade com minha futura esposa. Me formei mas mesmo assim não retornei de imediato ao jogo. Fiquei algum tempo estudando para concursos. Acabei passando em um e logo fui chamado. Não havia mais tempo para desperdiçar com cartas, eu pensava. Lá pelo sexto mês de trabalho, no final de 2007, eu e minha esposa estávamos em uma loja de brinquedos. Queríamos comprar alguns jogos de tabuleiros para brincar e jogar com as visitas. Quando fui pagar vi um deck de torneio de Campeões de Kamigawa na prateleira logo em frente ao caixa.

- Me vê um desses também.

E acabei levando, com o pretexto de ensiná-la a jogar, um deck e alguns boosters do bloco de Kamigawa, além de um tabuleiro de Detetive. A carta mais interessante que vi entre as que eu tirei foi o Meloku, achei muito bem elaborada e com potencial. Logo estava bolando alguns decks em torno dele. Fui procurar por Magic na internet e lembrei da Ligamagic, um site no qual havia me cadastrado há algum tempo mas nunca tive o interesse de acompanhar. Fui me inteirando pouco a pouco do jogo novamente, e logo descobri os programas que permitiam o jogo on-line, o que acabou sendo o empurrão que faltava, logo já estava comprando um booster box de Ravnica: Cidade das Guildas (sim, eu estava meio "atrasado" nos lançamentos). Não saiu nada muito interessante, mas fui comprando e trocando cartas até formar uma pool razoável, porem totalmente casual. Resolvi trazer de volta os decks de minha tokenzisse, e acabei montando um de elfos, um de rebeldes, um MBA e um burn meio torto, todos com cartas baratas apenas, para jogar com alguns amigos que reencontrei. Aos poucos fui refinando os decks com cartas mais caras. Queria um deck competitivo, mas não teria tempo de acompanhar rotações do tipo standard e até mesmo do antigo extended, e acabei optando pelo Legacy. Parecia interessante, já que as cartas top que você tem hoje tendem a não variar muito o preço ao longo do tempo, assim poderia ter um pouco mais de calma na elaboração de listas.

Mas qual deck? Não sabia muito sobre o formato, quais eram tier 1, o que era bom ou não, e decidi não arriscar muito. Comparei alguns Top8 de torneios pela internet e também os preços das principais cartas, acabei dando buyout em um Affinity que era o mais barato sem ser um completo lixo. Gostei do deck, fui deixando ele redondinho, mas eu simplesmente não conseguia ter jogo entre ele e meus demais decks, já que ele ganhava de todos. Parti para meu segundo deck, querendo algo ainda mais forte. Goblins era a solução, um deck top desde sempre praticamente, e ainda tinha aquele aspecto Timmy, mas era um pouco mais caro. Fui adquirindo as cartas aos poucos, trocando e comprando pela internet (nesta época tomei meu primeiro e único balão ao comprar 4 Goblin Piledriver, fiquei completamente emputecido por uma semana, mas hoje simplesmente tenho pena do individuo em questão). Em cerca de dois meses fechei meu monoR Goblins, que mais tarde viria a evoluir para um Rw, quando adquiri minhas primeiras old duals – dois Plateaus..

Não, eu não iria jogar. Estava casado e trabalhando muito longe de casa, não teria tempo, e estava satisfeito da forma que as coisas estavam. Mas eu queria ter os decks que não tive quando jogava Magic mais ativamente, ou seja, os decks tops. Estabeleci uma meta de a cada quatro ou seis meses montar um deck, e resolvi ser colecionador de decks (!). Em pouco mais de um ano consegui a maioria dos decks que gostei de pilotar (desde a trinca landstill/goblins/threshold da época, até os tier 2, rogues e casuais) superando em muito minha meta, provavelmente pelo fato de estar ganhando meu próprio dinheiro e ter um pouco mais de paciência do que na juventude para poder aproveitar melhor as oportunidades. Eventualmente jogava na internet ou IRL, mas nunca mais participei de nenhum campeonato, por opção, e mal frequento lojas. Isso porque acho que passei por todos os estágios importantes da vida de um jogador: a descoberta, aprendizado, profissionalismo, auge, abandono e nostalgia. Mesmo não tendo realizado todas as etapas somente jogando Magic, não sinto mais a necessidade de correr atras de resultados, mostrar nada para ninguém, ou mesmo aquele impeto de sair de casa em uma tarde de Sábado com uma mala nas costas pronto para jogar. Se este é o final mais comum para a carreira de um jogador eu não sei, mas estou feliz do jeito que estou e é isso que importa, e também fui muito feliz ao longo destes anos. Nos últimos tempos me aprofundei bastante na mecânica de jogo e no formato Legacy. Posso dizer que mesmo sem jogar competitivamente há muito, muito tempo, conheço o suficiente do jogo para sentar em uma mesa e jogar contra qualquer um. Também tenho aumentado a minha coleção de cartas que gosto e a formado minha própria pool legacy.

Finalizando, aconselho a todos vocês a correrem atras de seus sonhos, daquela ideia na qual ninguém acredita mas você põe toda sua fé, mas também procurem aceitar as opiniões e criticas, mantendo sempre sua personalidade. Também peço que não tenham preconceitos de qualquer forma, estamos todos no mesmo barco, seja jogando com um Tier 1 ou um tribal de Magos, ou mesmo outro card game. Sim, existem jogadores mais e menos experientes, existem decks melhores e piores em um dado ambiente e cada um tem sua opinião, mas educação e respeito são fundamentais. Argumente, explique, mas não agrida, eventualmente todos descobrimos o que é ou não bom. Cedo ou tarde você acabará vendo que essas coisas acabam sendo transportadas do mundo dos card games para algo maior. Acho que, entre outras coisas, foi isso que os card games me ensinaram e espero que todos tenham experiências tão ou mais ricas do que as que tive e consigam tirar o melhor delas.




Vorthos, o quarto tipo de jogador. Interessado na história, arte, flavor texts, personagens, cartas/decks históricos etc.

Magic can be fun even when you are not playing the game.




Obs: existe um quinto tipo de jogador, Melvin, o rato de biblioteca. É aquele que decora todas as regras possíveis e imagináveis;






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Comentários

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- 06/03/2013 16:54
Belo texto, não conheço nada de Pokemom mas em magic no legacy pelo menos buildar uma lista e fazer top em orneio grande é muito difícil de acontecer devido a todos os decks modinhas e acesso as listas atuais que está sendo jogado em todo mundo
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- 05/03/2013 18:15
Obrigado a todos!

Estou respondendo as pmsgs que chegaram aos poucos, mas vou responder todas :)

Vlw!
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- 04/03/2013 10:58
Cara, também me identifiquei muito com o texto! Lembro que conheci o Magic através da extinta revista Herói (uma vez até veio um Aríete de brinde em uma) e comecei a coleção comprando um deck de Era Glacial. O primeiro booster de Era que comprei veio com um Cavaleiro de Stromgald e aquela era a carta mais maneira que eu já tinha visto na vida! É minha carta favorita até hoje!

Ah, uma bizarrice: quando comecei a jogar com um vizinho meu, na hora de virar as cartas para usar, nós realmente virávamos a carta, ficando a parte de trás dela para cima, hehe. Só descobrimos o jeito de virar certo depois que começamos a frequentar uma loja!

Parabéns pelo artigo!
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- 04/03/2013 10:06
Me vi nesse texto... com a excessao q parei de jogar mil vezes e uma vez por 7 anos =)
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- 04/03/2013 08:52
Magnífico, emocionante e direto.
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- 04/03/2013 02:45
cara,escorreu um suor hétero dos meus olhos,muito legal tua história.

e é quando eu paro pra pensar,que ainda me falta chegar na parte do profissionalismo,porque as outras acho que já passei de alguma forma.
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- 04/03/2013 01:59
Muito bom! Gostei =)
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- 04/03/2013 01:28
excelente texto!
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- 03/03/2013 16:39
Ótimo texto, muito legal de ler :D