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Magic e Pandemia
Analisando o jogo no universo do “novo normal"
25/08/2020 10:05 - 4.557 visualizações - 22 comentários
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“Vocês viram que o GP São Paulo foi cancelado?”


Provável que essa tenha sido a frase que inaugurou a pandemia para mim. Assim como para alguns a pandemia só chegou quando a obrigatoriedade das máscaras passou a valer, para mim, foi essa frase, em uma loja de Magic paulistana, que marca o começo para o que vivemos hoje todos os dias.


Tudo mudou depois dessa frase, meus planos para aquela semana, para aquele mês e para todo o ano. Olhando para trás, parece que faz um século que nós sentávamos em lojas para jogar toda semana e falávamos sobre grandes eventos IRL. Faz tanto tempo, que nossa relação com o Magic já está diferente, já é possível analisar coisas que mudaram e que ainda podem mudar, talvez para sempre. Porque se existe algo comum em pandemias, além da crise de saúde que elas criam, é como elas aceleram mudanças na sociedade e o Magic, como produto e parte dessa sociedade, obviamente vai passar por essas mudanças.


O objetivo deste texto é analisar as mudanças que iam acontecer, independente da pandemia, algumas que aconteceram, por conta da pandemia, e mesmo tentar o difícil caminho de olhar para o futuro nebuloso, que sinceramente nem sei quando será, em que a pandemia estará controlada e poderemos enfim sentar e jogar.


Pré-Pandemia: Online, físico e OP


Para entender o que acontece em 2020 precisamos entender alguns cenários de 2019:


Magic ficou por muito tempo com um modelo de negócio próximo a um de uma livraria, você tem uma porcentagem de lucro baixa no seu produto principal, uma porcentagem alta em seus outros produtos e ganha na quantidade de material que gira Quando a loja faz um torneio, é uma maneira de girar o produto que ela tem. No entanto, alguns lojistas, e falo de um fenômeno nem um pouco novo, começaram a notar que era possível vender as singles, tirando de lá mais lucro, diversificando seu negócio. E em um desenvolvimento até que recente, a loja se especializa em singles, então você compra grandes quantidades de produtos selados, abre e vende suas singles. Mas ainda é o modelo livraria, espaço para jogo, produtos selados, torneios, etc. Com o crescimento do ecommerce, toda a nossa sociedade está discutindo como fazer negócios, porque eu teria uma lanchonete com mesas para meus clientes se posso apenas ter a parte da cozinha e fazer vendas online? Ifood, Ubber Eats e afins são um desenvolvimento desse pensamento, obviamente com um mediador entre cliente e empresa.


No Magic, a LigaMagic fez esse papel, temos o crescimento das lojas online de magic, que não tem espaço para jogo (apesar de ter espaço físico para guardar produtos), mas que vendem uma grande quantidade de singles. Se antigamente quem vendia single eram jogadores fazendo um mercado paralelo ao das lojas, que vendiam produto selado, agora a loja se torna esse mercado paralelo.

 

Seguindo essa nova loja que é ao mesmo tempo mercado principal do Magic (produto selado) e mercado paralelo (singles) a Wizards lança o Programa Premium, onde ela tenta trabalhar a questão da experiência diferenciada nas lojas que ainda tem salão de jogo e colocá-las como como vitrine do jogo físico. Outra questão também é que em 2019 começa a onde de produtos promocionais que vendem experiências. 


Em um artigo recente falei como Commander conseguia vender produtos selados em um universo que os jogadores compravam mais singles e como a Wizards começava a apostar que fazendo mais produtos selados com experiências únicas, caso do Secret Lair, ela conseguiria reproduzir esse sucesso. Então ou eu vendo apenas singles e não gasto com espaço, ou posso fazer um grande maior e até com um reconhecimento da nave-mãe e também vender produtos selados exclusivos.



Ainda em 2019, Modern Horizons, Core Set 2020 e A Guerra da Centelha marcam por um aumento do power level. Se tornam comuns cartas de grande impacto no jogo, o nível é tão alto que começamos a ter ondas nos metagames dos mais diversos formatos, primeiro um grupo de cartas muda tudo, então elas são banidas, aí vemos outra onda e o processo se repete. Eu tenho um sério problema com quem fala que a Wizards não entende de design de card game. O principal produto dessa empresa são cartas, ela tem um equipe experiente de designers, é difícil acreditar que depois de 25 anos de um jogo eles tenham simplesmente desaprendido como fazer isso. 
 

Mas se eu contar apenas cartas lançadas de Core Set 2020 para cá, incluindo Horizons, e contar também cartas que foram banidas em decorrência de cartas lançadas nessas edições (Caso de Mox Opal e Urza, Grão-lorde Artifice), e contar o número de banimentos, colocando os múltiplos formatos que a carta foi banida, temos um total de 36 banimentos. Por mais que cartas como Véu do Verão e Oko, Ladrão de Coroas estejam nesta lista mais de uma vez, 36 é um número muito alto,é como se toda carta que ganhasse destaque daquela edição fosse banida logo em sequência, isso para não falarmos, é claro, na errata do Companion, que foi uma espécie de banimento em massa. Como eu já disse, me custa acreditar em falta de conhecimento e me parece muito mais um caso de “aumento de poder intencional”, você faz cartas melhores, elas tem grande impacto, força mudanças e no mercado se mexer. Isso faz sentido em Modern Horizons, que se fosse lançada todo ano acabaria com o mito do “formato seguro e sem rotação” que é uma bandeira que ene jogadores levantavam e que cai por terra, forçando com que eles pelo menos participem do mercado paralelo.


O MTG Arena também aparece com força aqui, abraçando a plataforma para ser sua vitrine para novos jogadores, a Wizards faz com que toda vez que a palavra “Pro” for usada com com o significado de “promocional”, o Arena esteja ligado, seja em um evento como a BGS, seja em um Campeonato Mundial, tudo passará pela nova plataforma, é nela que os holofotes devem ficar.

 

Para concluir 2019, quero lembrar que foi um dos piores anos para o Organized Play do jogo, as constantes mudanças de estrutura enfraqueceram o competitivo, diminuindo o tamanho dos grandes eventos, simplesmente porque ninguém sabia como era o tal “caminho para o profissional”. Em um texto do começo do ano eu falei sobre como o OP é importante para se manter parte significativa do jogo vivo e como esse descaso teria consequências, isso que ver um Grand Prix nos EUA dando 350 jogadores já acenderia a luz amarela.


Pandemia: Online


Quando todo esse background chega à Pandemia, o Magic enquanto comércio faz o que outros comércios estão tentando fazer, digitalizar todo o processo e replicá-lo oniline. Então eu faço o jogador participar de eventos online, vendo meus produtos para quem está em casa, uso serviços de delivery e tudo certo. Correto? Não.


Um problema (ou solução) do Magic Online é que ele emula exatamente a experiência que os jogadores de magic tem com o jogo. Seja em torneios, seja em compras, ele imita o que acontece em todas as etapas da relação de um jogador. Inclusive a relação com o objeto que ele utiliza, o fato de você poder transformar o que está na tela em dinheiro quando bem entender, dá a relação que o jogador tem como o Magic, uma espécie de “investimento” que ele pode “sacar”. Ele não estranha que após gastar três mil reais em cartas ele tenha que pagar inscrições, é um preço para fazer “a máquina se pagar”, e essa mesma relação acontece no Magic Online, mesmo que o objeto nunca seja seu de verdade, o fato de poder tirar ele do digital e transformar em algo real (dinheiro), o faz próximo. No entanto, o MTG Arena não tem essa opção. Eu posso transformar meu dinheiro em algo na tela, mas não esse algo na tela em dinheiro (salvas raríssimas exceções) e o vazio da construção de valor pode explicar porque os jogadores não foram aos eventos online, porque eles se negam a participar de torneios que têm as mesmas condições que eles aceitavam. Antes eram 20 reais para jogar por premiação usando meu deck de três mil reais, agora são 20 reais para usar esse objeto que eu ainda não sei quanto vale, a relação fica diferente. Eu posso fazer minha tela brilhar e falar vitória sozinha, entrando em eventos gratuitos, por que eu pagaria para algo que não faz isso? Se eu jogar Ranked, eu pego mítico. Se eu jogo Torneio do Arena, eu ganho Gold e cartas, até mesmo gemas. Porque eu pagaria meu dinheiro, que tem um valor simbólico alto, para um evento que não me dá nada dentro do jogo? 


Essas perguntas não encontram respostas neste novo cenário. SCG, CFB e diversas lojas podem observar esse fenômeno, onde eventos de grande escala tem números pífios. Em tese todos podemos jogar um SCG Open agora, mas não existe valor simbólico que ligue o dinheiro ao virtual. A relação de premiações também conta, se você pedir em seus eventos que os jogadores usem tempo ao invés de dinheiro, os jogadores aceitam melhor, porque essa relação eles já conhecem dentro do MTG Arena.


 

Outra mudança de relação se dá com relação aos bans. Eu comentei sobre o aumento de Power Level e as ondas de banimentos, para um mercado de cartas físicas, todo novo ban é um terremoto, que precisa de tempo para se recuperar, inclusive, eu diminuo o impacto do terremoto o anunciando com antecedência, com o Online ficando o mais importante, já que não tenho eventos físicos, a Wizards fica mais agressiva, o online se move mais rápido que o físico e não tem um mercado paralelo como âncora, eu posso forçar mais bans nele, forçando mais mudanças, evitando que os jogadores se acomodem. O mundo online tem o eterno desafio de chamar a atenção do jogador em sua própria casa, eles está a poucos cliques de qualquer outro entretenimento e isso não acontecia com o Magic antes, o jogador ia até a loja, e lá ele dava toda atenção ao jogo, agora eu precise que tudo brilhe mais, que tudo seja mais intenso, seja a raiva, a indignação, ou as mudanças. Resultado, bans sem anúncio prévio e uma rotação forçada, um mês apenas antes da rotação oficial, fazendo com que as coisas mudem com uma frequência maior que a normal.


Outro sintoma, lembra das políticas de “lançar mais produtos selados para os jogadores consumirem com uma nova experiência” e “power level alto muda formatos que deviam ser estáticos”? O MTG Arena conheceu Jump Start e Amonkhet Remastered, duas edições com essas filosofias aplicadas ao novo mundo online.


Curiosamente, 2020 se tornou um dos melhores anos para o jogo competitivo quando falamos de organização. Agora existe um caminho claro e simples para o Pro Tour, ou Rise of Zendikar Championship, MTG Arena e Magic Online tem suas rotas bem traçadas, que inclusive podem passar por organizadores independentes, mas que estão explicadas até o final deste ano.


E depois


Nunca é fácil tentar olhar para o futuro e ver algo em suas atmosfera completamente difusa, mas acho improvável que o fim dos tempos que os apocalípticos (e digo isso quase que no sentido do Umberto Eco) preveem para o jogo físico. Existe muito força e valor agregado ao jogo físico e suas cartas, mas esse mundo em que as lojas tem que passar por Ikoria, M21, Jump Start, 2XM (e VIP), entre outros produtos é ruim especialmente para os menores, que obviamente são os que mais sofrem com uma crise, não é incomum vermos lojas pequenas indo na contramão da=o que falei lá no começo, de diminuir seus espaços para apenas vender online, e abrindo seus espaços, com uma pseudo segurança para atrair aquele jogador para levar um booster e assim, no modelo livraria, tentar recuperar um mínimo para viver. A proibição do jogo em loja também precisará ser discutido a cada novidade.


O futuro é para 2020.


Até mais!
Ruda

Rudá Andrade dos Reis ( Ruda)
Aficionado por decks azuis agressivos, mas que não dispensa um bom Siege Rhino nas horas vagas, está no Magic desde 2003, em Flagelo.
Redes Sociais: Facebook, Twitter
Comentários
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- 28/08/2020 16:55

Não faça isso. O que é seu, é seu. Todo mundo se desanima com o jogo em algum momento, mas isso é um péssimo motivo pra se desfazer do que você tem.
Fica aqui o conselho do tiozão que se desfez de uma coleção notável em 1998 e acaba sempre retornando pro jogo: descanse. Dê uma pausa no jogo, cuide do seu acervo, organize coleções GUARDE seus baralhos bem guardados e se "desintoxique" de Magic. Depois de algum tempo você pode acabar voltando e tudo estará lá pra você, vai rolar até nostalgia.
Eu mesmo estou em um processo de me livrar de um "lixão" de umas cinco mil cartas até ter apenas as minhas coleções (vinte e cinco ilustradores, mais algumas séries antigas) e baralhos (incluindo commander) para jogar com a família e amigos.
Como bem disse o colega abaixo, se é pra não "investir" mais, pense no que tem como decks fechados que você pode aproveitar em 100% especialmente se você se desligar da corrida pelo "meta" do jogo.
Mas antes de tudo: descanse.

(Quote)
- 28/08/2020 10:18

Cara só vende se o dinheiro estiver fazendo falta mesmo, porque como disse o MMAMetal, a chance de você e arrepender depois é enorme. Pensa o seguinte, só com a pool de decks que voce tem, ja pra fazer um champs em casa, pensa nela como um card game fechado (tipo muchkin) onde voce pode ensinar outras pessoas a jogar COM OS SEUS DECKS! Sem a necessidade de fazer aquele amigo que nunca jogou, ter que comprar, fora isso como eu disse, todo jogador é um colecionador também. Já vendi decks pauper no passado quando desanimei e hoje to refazendo eles. Magic tem dessas coisas, a gente desanima mas sempre volta hahaha

(Quote)
- 28/08/2020 10:05

Filhão, troca idéia com a sua galera antes de vender suas coisas, minha turma é de commander e pauper, quase todo mundo joga Arena, mas ninguém tem pretensão de ficar só no micro.
Se seus amigos estiverem vendendo os decks deles, ou então você acha que vai ser muito trampo conseguir se juntar com outra galera, ou se tu estiver precisando de grana, aí compensa vender. Mas pensa com carinho antes de decidir, já vi bastante gente arrependida de ter vendido e quando voltou a jogar por sei lá qual motivo, teve que pagar quase o dobro pra ter as mesmas coisas again.

(Quote)
- 28/08/2020 09:33
Bom artigo. Eu tenho essa resistência com o magic virtual, meu primeiro contato com o magic foi aos 13-14 anos, jogava sem saber as regras mesmo, foi amor a primeira vista.

Alguns anos depois me mudei para outra cidade que tinha um field com bastante jogadores, foi quando eu quis jogar de forma competitiva, aprendendo a regras e investindo em cartas caras, isso em 2016. Hoje eu tenho uns 6 deck modern, 4 pauper e 1 pionner, faz uns 8 meses que eles estão guardados e noto que meus amigos todos migraram para o Arena ou MOL. Estou a um passo de vender tudo, mas não sinto vontade de jogar online. Eu me apaixonei pelo Magic exatamente pelo fato que era um motivo de encontrar a galera, visto que nasci na era dos jogos online, CS, MMO, entre outros.
(Quote)
- 26/08/2020 14:21

Magic nasceu como um jogo, porém foi rapidamente transformado em algo colecionável pelo jogadores (vide Lista Reservada, que basicamente só nasceu porque os colecionadores entendiam que MTG era igual os cards de baseball, logo se sairam uma vez não poderiam ser refeitas para nao perder valor...esse foi o argumento pelo menos haha). Então por mais que o "play" de todos os formatos um dia vire virtual, ainda vão ter pessoas que mais colecionam do que jogam (eu com meus 8 decks pauper parados a mais de um ano por falta de tempo me incluo nisso). Como disse, não jogo físico a muito tempo, porém hoje jogo Arena todo dia, e apesar disso não me desfaço dos meus decks.

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