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A F.I.R.E. está matando o Magic
Reflexos da filosofia F.I.R.E. no Legacy e o Power Creep do MTG nos últimos dois anos.
23/05/2020 10:05 - 31.120 visualizações - 219 comentários
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O anúncio de banimentos no Legacy, na última segunda-feira, dia (18/05/2020) foi, pra dizer o mínimo, decepcionante. Banir Lurrus da Toca Onirica e Zirda, o Brilho da Aurora resolveu muito pouco o problema do formato, que depois disso seguiu quebrado, chato e extremamente resumido à resolução de haymakers, leia-se Oko, Ladrao de Coroas ou Uro, Tita da Ira da Natureza.


Quem vem acompanhando meus artigos e o formato de uma maneira geral, deve ter percebido que desde 2018 com War of the Spark, o Legacy passou por mudanças sem precedência na história do formato. O que era antes considerado um formato bastante estável, no qual mudanças do metagame eram bem lentas e a entrada de cartas novas era extremamente acanhada, hoje está à beira de ser considerado um formato de rotação, tal qual o T2.


Foram tantas cartas absurdamente desbalanceadas lançadas pela dona Wizards nesses últimos dois anos, que o que antes acontecia com o Modern, agora está acontecendo com o Legacy. Basicamente tudo que é lançado de novo, quebra o formato e provoca uma mudança bem significativa no metagame, simplesmente porque falta um cuidado mínimo da equipe de design da empresa com as interações que as novas cartas podem gerar quando em conjunto com as cartas antigas do Legado.


Começando do começo, voltemos a 2018, com o lançamento de WAR. Karn, o Grande Criador, Teferi, Manipulador do Tempo, Narset, Rasgadora de Veus ingressaram no Legacy, de maneira um pouco acanhada, e em conjunto com elas, Arcanista da Horda Medonha  ressuscitou o UR Delver com a engine absurda de card advantage que ele gera.


Tenho que confessar que apesar de muito boas, essas cartas não mudaram o metagame completamente, a ponto de rotacionar decks. Elas foram incorporadas em alguns arquétipos já existentes, UWR Control, Delver e Bomberman, por exemplo. Alguns decks ficaram bem melhores que antes e, de fato, a diversidade acabou aumentando. As adições, entre várias aspas, foram até bem vindas, no que pese terem mostrado as garrinhas desde o início, em razão do elemento prision, não simétrico, que cada um dos PWs possuem.


Recordo que a galera do Legacy achou até bem legal algumas cartas novas no formato, já que aquilo era bem raro de acontecer, mesmo que o metagame de antes de WAR estivesse excelente, uma vez que estava super balanceado e bem diversificado. Mal sabíamos, naquela época, porém, que essa era apenas a primeira de muitas pedradas que o formato iria receber. O que foi pensado como um presente, na verdade, era um Cavalo de Tróia.


Daí em diante, todas, repito, TODAS as edições lançadas tiveram pelo menos uma carta que virou staple do formato. Pasme! Vou repetir: todas as edições lançadas no MTG, desde WAR, tiveram pelo menos uma carta que virou staple de Legacy. Pra ser mais específico, tiveram pelo menos 6 cartas entrando no formato.


Vou listar todas, se prepare:

 

War of the Spark: Tomik, Advoquista Distinto, Arcanista da Horda Medonha, Return to Nature, Triunfo de Liliana, Narset, Rasgadora de Veus, Zona de Explosao , Teferi, Manipulador do Tempo e Karn, o Grande Criador, totalizando 8 cartas.


Modern Horizons: Giver of Runes, Echo of Eons, Force of Negation, Tribute Mage, Urza, Lord High Artificer, Dead of Winter, Plague Engineer, Goblin Engineer, Shenanigans, Collector Ouphe, Force of Vigor, Hexdrinker, Cloudshredder Sliver, Hogaak, Arisen Necropolis, Ice-Fang Coatl, Unsettled Mariner, Wrenn and Six, Prismatic Vista, Arcum's Astrolabe, totalizando 19 cartas.

 

M20: Chandra, Awakened Inferno, Veil of Summer, Elvish Reclaimer, Drawn from Dreams, Mystic Forge, Manifold Key, totalizando 6 cartas.


Throne of Eldraine: Brazen Borrower // Petty Theft, Charming Prince, Emry, Lurker of the Loch, Mystical Dispute, Gilded Goose, Drown in the Loch e o famigerado Oko, Thief of Crownstotalizando 7 cartas.


Theros, Beyond Death: Heliod, Sun-Crowned, Ox of Agonas, Underworld Breach, Thassa's Oracle, Dryad of the Ilysian Grove, Uro, Titan of Nature's Wrath, totalizando 6 cartas.


Ikoria, Lair of Behemots: Wilt, Sprite Dragon, Gyruda, Doom of Depths, Yorion, Sky Nomad, Zirda, the Dawnwaker, Lurrus of the Dream-Den, totalizando 6 cartas.


52 CARTAS!
52 CARTAS!
52 CARTAS!


Isso mesmo, 52 cartas e ainda corre o risco de eu ter esquecido alguma. Tenho certeza que você deve estar pensando que Modern Horizons, com 19 cartas, deveria ter se chamado, na verdade, Legacy Horizons.


Pra quem está achando que isso foi uma mera coincidência....sinto muito, mas foi tudo de caso pensado. Em WAR, a nossa querida Wizards inaugurou seu novo jeito de criar cartas, baseada em uma nova filosofia, que foi batizada de F.I.R.E.


Segundo o artigo de apresentação dessa filosofia, o objetivo deles era criar empolgação nos jogadores com as novas cartas em cada edição, excitement em inglês, embora o termo não soe tão legal em português.


F.I.R.E. então, era um acrônimo para: F: FUN (engraçado); I: INVITING (convidativo); R: REPLAYABLE (balanceada e diversa); E: EXCITING (empolgante). Quem quiser dar uma olhadinha no artigo deles que explica direitinho a nova filosofia, só vir aqui: magic.wizards.com/en/articles/archive/card-preview/fire-it-2019-06-21

 

O resultado dessa filosofia, porém, foi um power creep monstruoso que tomou de assalto o MTG inteiro e não só o Legacy, tendo em vista que ao longo desses dois anos foram necessários quase o mesmo número de banimentos em todos os formatos, do que provavelmente aconteceram nos últimos 5 anos de Magic.


No Legacy, por exemplo, de 2012 (quando entrei) a 2018, tivemos 5 banimentos, Dig Through Time, Treasure Cruise, Sensei's Divining Top, Deathrite Shaman e Gitaxian Probe. Uma frequência de menos do que 1 banimento por ano.


Em 2019 e 2020, com a nova F.I.R.E., já tivemos 4 banimentos, sendo eles Wrenn and Six, Underworld Breach, Lurrus of the Dream Den e Zirda, the Dawnwaker. Ressalto que essas cartas quebraram por completo o formato e causaram uma completa restruturação de cartas e decks em torno delas (rotação!). Ou seja, até agora, dobramos a meta de banimentos, se levado em consideração o número de banimentos por ano.


Sem contar que depois que essas 4 ultimas cartas quebraram por completo o formato, quatro outras são alvo de constante reclamação, já que deixaram o metagame do meio, leia-se metagame depois da ida de Wrenn and Six e antes da chegada de Ikoria, completamente homogêneo em torno delas, foram elas Oko, Ladrao de Coroas, Veil of Summer, Arcum's Astrolabe e Uro, Titan of Nature's Wrath .

 

Não é preciso muito para concluir que essa nova filosofia, que gerou esse power creep absurdo, foi desastrosa pra o Legacy e arrisco dizer para o MTG como um todo. A cereja do bolo, os companions, distorceu tanto o MTG que gerou reclamações em uníssono entre jogadores de todos os formatos, salvo algumas poucas exceções. A repercussão da mecânica foi tão negativa que no último anuncio de ban, do dia 18/05/2020, eles citaram a mecânica, especificamente, e disseram que ela poderá ser revista após a coleta de mais dados. Afinal, quem poderia dizer que começar com 8 cartas na mão seria algo quebrado, certo?


O grande problema é que há pouco tempo a WOTC veio a publico dizer que tem um time de teste de primeira. Que possui a Future Future League, que é, basicamente, um grupo de testes que tenta predizer os problemas das coleções de Magic um ano para frente, jogando tudo que o R&D, que é basicamente a equipe de design, desova na mão deles.


Ora, senhores, como uma empresa, que tem funcionários dedicados ao jogo a mais de duas décadas e tem uma Future Future League não conseguiu prever os impactos das cartas criadas sob essa nova filosofia no jogo como um todo, principalmente nos formatos eternos? Será que ninguém lá dentro foi capaz de levantar a mão e falar: “Olha, eu acho que esse gatinho vai quebrar o Vintage e o Legacy...”

 

Eu sei que vocês vão falar que a Wizards não testa formatos antigos e que a preocupação é o T2. Entretanto o número de bans no T2 nos últimos anos mostra que alguma coisa de errado está rolando e é grave.


Como disse um amigo meu, João Carvalho, é claro o objetivo de maximização dos lucros da empresa. Parece que o objetivo é atrair novos jogadores com cartas turbinadas e que podem ter vários brilhinhos no Arena. Vir no twitter, depois que vendeu várias boxes, e se desculpar, beira o mau caratismo. Seria, nas palavras do João, muito mais legal se o Maro tivesse feito um mea culpa e assumido que descobriu que todo mundo do design passou 2 anos cheirando peiote ao invés de pensar no impacto das novas cartas no jogo.


O fato é que a Wizards, no último dia 18, poderia ter salvado o Legacy. Maro e seus companions (foi mal pelo trocadilho) e toda a equipe de design, deveria, de fato, ter feito um mea culpa, assumindo que a mecânica foi um fracasso, pelo menos para os formatos eternos, e tê-la banido do Legacy e do Vintage, ao menos.

 

Digo mais, eles deveriam ter ido mais fundo e tirado de vez do formato Oko, Veil e Astrolabe. Eu sei, eu sei... Eu já fui a favor de que Astrolabe e Veil continuassem no formato. Entretanto, tendo em vista todo esse conjunto de mudanças propiciados pelo R&D da empresa, o impacto que essas cartas estão gerando no Legacy suas características, hoje, pesam mais em desfavor do que a favor.


Eu fui convencido de que é possível de montar decks acessíveis no Legacy sem o Astrolábio, principalmente por que ele foi responsável por tirar do meta decks antes bons e “baratos”, como o Death and Taxes. Por isso, atualmente, creio que os contras do artefatinho pesam muito mais que os prós.


Numa tacada só, a Wizards podia ter mandado pro ralo pelos menos 6 cartas importantes, das quais 6 ainda vão estragar o formato: Gyruda, Yorion, e as quatro já citadas. Talvez pensando em tentar aproveitar a venda de Ikoria, ainda, tirou do formato apenas duas. O resultado é que voltamos para o inferninho que era jogar num meta cheio de Snow Control, com a diferença que agora os Snowkos começam com 8 cartas na mão.


Diga-se de passagem, Gyruda é possivelmente o deck mais unfun que já existiu na história do Legacy. Completamente não interativo, extremamente pobre em decisões, é um deck de “cemitério” não atingido por Leyline of the Void, que foi capaz de me mostrar que existem coisas piores no mundo do que uma colonoscopia, por exemplo, ser atacado por um exercito de clones lendários no turno 1, mesmo que seu oponente tenha mulligado a 2.


O Legacy é um formato historicamente estável. Ele tem que ser estável, inclusive, até pelo preço das cartas. Gastar uma grana preta com Old Duals e outras Staples, levar 1 ano montando o deck em prestações, pra no final do ano seu deck ficar obsoleto por causa de uma nova edição de MTG, é de descolar o ânus das nádegas.


Jogadores de Legacy são apegados aos seus decks. As cartas fazem parte de uma coleção que dá orgulho e que sempre tem uma história. Os decks tem uma história, existem threads no MTG: the source, vários e vários GBs de conteúdo sobre estratégias de sideboarding, reports, escolha de cartas dentre as 75, fóruns, sites especializados, artigos, vídeos no Youtube e na Twitch, entre outros. É bastante comum um jogador de Legacy se apegar a um deck e seguir jogando com ele a vida toda. É comum que esse jogador fique conhecido por isso e pelos bons resultados que conseguiu com aquele deck, até porque o meta sempre foi muito extenso, diversificado e cheio de interações únicas.

 

Sempre que me perguntavam sobre com qual deck jogar em um campeonato de Legacy, minha resposta imediata era: com aquele que você jogar melhor. É muito comum no Legacy um jogador ser bem sucedido com um deck que domina melhor, mesmo que esse deck não seja um tier 1. Isso acontece porque o formato possui muitas interações complicadas e o conhecimento de como navegar por elas conta mais do que ter o “melhor” deck da vez. Por exemplo, o querido amigo Daniel Nunes, que é super conhecido aqui e la fora por pilotar magistralmente o Fractius.


Infelizmente essa nova filosofia F.I.R.E. está matando essa característica única do formato, com a impressão de cartas que ganham o jogo sozinhas e tem aquele efeito de empurrar a partida para uma vitória, geralmente de quem resolveu ela primeiro: vide Oko, Uro e Véu.

 

Além disso, ignorar a base de players de formatos antigos é extremamente errado. Nas palavras de Reid Duke, o que diferencia o Magic de outros card games é exatamente essa base diversificada de players, de outros formatos, que colecionam e jogam com cartas impressas há mais de duas décadas. Foram esses jogadores que apoiaram o jogo em seu início, foram eles que participaram dos campeonatos quando GP e PT nem eram tão glamourosos e nem pagavam tanto. Ignorar esses jogadores, pra falar o mínimo, é desrespeitoso.

 

O Legacy não é isso que estão fazendo com ele. O Magic não é isso que estão fazendo com ele, e apesar dos esforços da Wizards em destruir tudo que foi construído nessas mais de duas décadas do jogo, a gente fica aqui, esperançoso que Maro e sua equipe acordem para a realidade.


Tenho certeza que nesses últimos dois anos, todo mundo, a essa altura, já deve ter descoberto que de FUN, INVITING, REPLAYABLE e EXCITING, essa filosofia nova não teve foi nada.

Thiago Mata Duarte ( thmduarte)
Fundador e organizador da Liga Mineira de Legacy (2014 - 2018), organizador do Nacional Legacy desde 2018, é um entusiasta e ativo incentivador do formato no país. Joga Legacy desde final de 2012 e desde então sempre tem alguma coisa para falar, desde os recônditos obscuros do POX, passando pelos tier 5 de Opalescence, até chegar nos decks de Brainstorm.
Redes Sociais: Facebook, Instagram, Twitter
Comentários
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(Quote)
- 18/06/2020 18:47
Quem migrou do Legacy para o Commander (eu) tem curtido e agradecido essa filosofia da Wizard!
(Quote)
- 04/06/2020 08:30
Pra galera que acha que é chororô dos formatos eternos, se o problema fosse só esses formatos, bastaria banir somente neles. A mecânica é legal, mas mal planejada e impactou negativamente até no Standard, tanto que surgiu a mudança. O artigo fala do Legacy, mas não se limitem a isso.
(Quote)
- 04/06/2020 02:56

Concordo 100% com vc.
Uma mecânica mó legal que o choro arruinou.

(Quote)
- 04/06/2020 02:53

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
boa, boa

(Quote)
- 01/06/2020 16:28

2 palavras: PARA BENS

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