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O que é uma carta de Magic?
Parte 2
13/02/2020 10:05 - 3.933 visualizações - 7 comentários
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Depois de uma rápida introdução ao conceito  das características visuais que definem uma carta de Magic, bem como suas aplicações nos dois primeiros frames do jogo, vamos analisar o sucesso ou o fracasso dos frames que foram lançados a seguir até os dias de hoje.
 
 
Bem, antes de começarmos essa segunda parte um disclaimer. Eu sei que disse que a primeira parte ficou longa, quando na verdade ela ficou bem curtinha. Acontece que os dois artigos foram escritos como um só e foi bastante cansativo procurar as imagens das cartas, além de criar no Illustrator o gabarito com as faixas, o que  me fez dividir o texto em dois.
 
Relembrando então a conclusão que chegamos na primeira metade é que, historicamente, os frames de carta no Magic migraram da forma cheia de flavor que tinham pra algo bem mais funcional, ainda sim, mantendo sua característica principal de serem divididos em cinco faixas de informação horizontal, sendo essas faixas: nome e custo da carta, ilustração, tipo da carta, caixa(s) de texto e autor da ilustração. Agora sim, podemos começar a discutir os frames lançados após oitava edição.
 
A primeira modificação no frame, que hoje nós chamamos de Moderno, foi em Campeões de Kamigawa, pouco mais de um ano depois. Não foi nenhuma modificação estética, mas sim mecânica. A criação de um frame especial para a mecânica de girar ( ou flip em inglês). 
 
Antes de tentar entender os problemas com esse frame especial, preciso apresentar outro conceito importante e muito utilizado no Design: a “limpeza” da informação. É bem comum que em materiais publicitários mais comuns, como panfletos e flyers, principalmente de estabelecimentos comerciais mais simples, os donos só queiram enfiar a maior quantidade de informação possível no menor espaço disponível. Vou exemplificar com duas imagens que peguei no Google.
 

 
 
Alguma coisa te incomoda nesse panfleto? Provavelmente é a quantidade de imagens misturada com textos de cores que quase te cegam de tão fortes. Tem tanta coisa escrita em um panfleto só que é difícil até de ficar olhando muito tempo, nesse caso dizemos que a arte está “suja”(PS: Nada contra o estabelecimento, que eu nem conheço, só que a arte está realmente horrorosa). Agora olhe este outro exemplo de panfleto, também de pizzaria.
 

 
 
Não é a melhor arte do mundo, mas claramente é bem melhor do que a primeira. Veja quão mais fácil é ler as informações, além disso quanto esse segundo panfleto é consideravelmente mais prazeroso de se olhar, nesse caso, nós dizemos que a arte está “limpa”.Bem, então vamos agora olhar uma carta que girava em Kamigawa.
 

 
 
 
Como você pode observar frame moderno foi mantido na medida do possível, no entanto essas cartas são simplesmente… confusas, “sujas”. Ao tentar colocar duas cartas inteiras em uma só tanta informação foi colocada junta que bem… o problema aqui realmente não é não parecer uma carta de Magic, mas simplesmente ser difícil de ler. As cinco faixas de informação viraram 8, as caixas de texto foram parar acima do tipo, o símbolo de edição está em um lugar completamente aleatório. Além disso se você ataca com uma dessas criaturas, é bem difícil saber se elas já estavam giradas (flipadas) ou não. Eventualmente essa mecânica acabou se tornando a mecânica de Transformar, criada em Innistrad, e que corrigia as bizarrices presentes nesse frame de Kamigawa com o uso de cartas dupla face. Por isso até hoje tem gente que “flipa” o Delver of Secrets.
 
 
E se nós pudéssemos então usar o Flavor a favor da função? Foi isso que o design da Wizards deve ter pensado quando ocorreu a próxima mudança no frame. Em Ravnica : City of Guilds. Na verdade essa mudança aconteceu especificamente no frame de cartas multicoloridas, originalmente criadas em Legends.
 

 
 
Além das mudanças perceptíveis do frame antigo para o moderno, perceba como na carta de Legends, não há nenhum elemento identificando aquela mágica como verde ou vermelha. Sem os custos de mana, provavelmente você não conseguiria dizer quais as cores dessa carta. Perceba como foram adicionados contornos que iam do vermelho para o branco, claramente identificando que essa carta só poderia ser jogada em decks com ambas as cores, além das cartas de mana híbrida, em que as cartas iam de uma cor à outra, mostrando que elas poderiam ser jogadas em decks de uma OU da outra cor.Um exemplo é o Maga da Guilda Boros.
 
 

 
 
 
Além disso, as cartas de duas cores receberam marcas d’água indicando a qual guilda pertenciam dentro da cidade de Ravnica. A ideia dessas mudanças era passar não somente uma sensação de pertencimento às guildas ( o que rapidamente mostrou-se ser uma estratégia eficiente de vendas), mas também mostrar que cartas douradas simbolizavam magias mais difíceis de se conjurar, exigindo duas cores de mana específica, ainda mostrar que cartas de duas cores podiam ser usadas em decks que não necessariamente possuiam aquelas cores, mas que seria mais fácil conjurá-las possuindo as duas cores do que sem. 
 
 
Agora é hora de tirar o elefante da sala. Future Sight. O frame em que tudo deu errado. A coleção em si é cheia de erros de design, e experiências que foram e não foram pra frente. Além de pequenos spoilers de planos futuros como no Tarmogoyf.
 
 

 
 
Além de um spoiler dos tipos de permanente Planeswalker e tribal. Na época ninguém sabia o que era qualquer uma dessas coisas. Contudo, não é isso que mais chama a atenção na carta. E sim que ela era completamente diferente de qualquer coisa que a Wizardes já tivesse impresso até então. De fato, em Future Sight, foi a primeira vez que os jogadores realmente puderam dizer . “Não parece uma carta de Magic”. Independente se gostavam ou não do novo frame, ele com certeza causava ( e ainda causa ) estranheza. Muito porque, pensando na forma como os jogadores seguravam a carta, o design transformou o custo de mana da carta em uma informação VERTICAL.
 
É sempre bom relembrar que o que define, até hoje, o design de uma carta de Magic, são as faixas HORIZONTAIS de informação. Além disso, há um grave defeito nessa carta que é não comportar custos de mana mais complexos. Imagine colocar custos como o do Reaper King num frame desses, o custo de Progenitus nem ao menos caberia nesse frame. Vendo isso, ele foi abandonado e ficou exclusivamente em Future Sight.
 
 
A próxima modificação veio em Lorwyn, onde nós conhecemos as permanentes do tipo Planeswalker, “spoiladas” pelo Tarmogoyf em Future Sight. Um dos planinautas apresentados na coleção foi Garruk Falabravo.
 
 
 
 
 
 
As cartas de Planeswalker possuíam algumas características muito únicas que as diferenciavam do resto. A borda inferior foi alterada, de forma a criar contraste e destacando mais as informações sobre o artista. Além disso a caixa de texto era semi-opaca, nos permitindo quase ver toda a arte, que podia “sair” para fora da faixa  em alguns caso, característica que até hoje os diferencia de outras cartas do jogo. Mas, ainda sim, você consegue ver as faixas horizontais nos mesmos lugares, embora com uma linha um pouco mais flexível, o que fez que, ao contrário de Future Sight, esse frame não gerasse estranheza.
 
 
E agora, pulamos para a uma das últimas grandes mudanças nos frames do jogo. Já que quase nenhuma mudança mecânica gerou mudanças tão grandes a ponto de afetar drasticamente o frame das cartas (talvez, Meld, mas mesmo assim não mudou tanto). M15.
 

 
Inspirados, pela mudança na borda inferior para o frame de planeswalkers, em M15, o design do jogo nos revelou o mais novo frame de cartas. Chamado por alguns de Contemporâneo ( em comparação com o Moderno), M15 aumentava ainda mais o tamanho da arte, e finalmente padronizava as informações que eram colocadas embaixo da carta, além da inserção do selo holográfico em cartas de raridade Rara ou Mítico Rara. Com poucas mudanças, a Wizards conseguia deixar a carta ainda mais “limpa” e com informação mais clara, mantendo as principais características do que se havia até então. Houve alguma reclamação, mas com o tempo ele foi aceito e é o padrão para ser usado atualmente, proporcionando mudanças que contribuiram para a criação de novos frames mecânicos posteriormente, principalmente as Sagas e os Veículos.
 
 
Os veículos, um tipo de artefato introduzido em Kaladesh, e posteriormente os veículos coloridos ( de Guerra da Centelha), se aproveitavam da borda de carta mais fina, criada em M15, para se diferenciarem dos artefatos comuns (mesmo no flavor), já que eles não eram simplesmente objetos mágicos usados para darem poder em lutas, muito menos equipar em criaturas. Os veículos eram artefatos que usavam criaturas para atacar e bloquear, usando sua habilidade de Tripular, como se a(s) criatura(s) estivessem dirigindo o veículo. Um bom exemplo de veículo é Coracao de Kiran.
 
 
 
 
 
A borda dos veículos lembrava uma estrutura de ferro e madeira, mostrando que as criaturas estavam “protegidas” por essa carcaça.
 
 
Já as Sagas, nos trazem um frame revolucionário. Acabou passando despercebido, mas elas são o primeiro exemplo de uma mecânica que deu certo possuindo informação verticalizada. Minha opinião é que por se tratar exclusivamente de uma alteração mecânica, com a intenção de simular uma página de pergaminho, em que uma história é contada, e manter as características de limpeza e clareza de informação, a verticalização da arte nem incomodou. Simplificando o encantamento ao juntar a caixa de texto à arte, adicionando um pequeno espaço, que simula capítulos, as Sagas são amplamente utilizadas e até bem gostadas pelos jogadores hoje, como Historia de Benalia.
 
 
 
 
 
 
Uma característica muito própria das sagas é que a arte, mesmo vertical, é alinhada com os capítulos delas. Olhe que em História de Benália os capítulos 1 e 2 estão alinhados com uma figura de um cavaleiro, e o capítulo 3 com a cidade de Benalia em sim. Mostrando que depois que os cavaleiros se reuniram em Benália, eles agora são mais fortes. (Me corrijam mestres da lore, por favor <3 )
 
 
Com isso, acho que cubri todos os frames e alterações que provocaram grandes mudanças no conceito do que percebemos como O que é uma carta de Magic. Propositalmente não falei das Masterpieces, já que pretendo falar delas mais pra frente. Tem alguma coisa que você achou que faltou? Algum frame desses que você gosta ou desgosta mais ou menos? Deixe nos comentários e até uma próxima vez.
Miguel Augusto Camarano ( MCamarano)
Miguel Augusto Camarano de Oliveira, ou somente Camarano, nasceu e mora em Goiânia-GO, é estudante de Publicidade e Propaganda na Universidade Federal de Goiás começou a jogar Magic em 2017. Jogador de praticamente todos os formatos, é um apaixonado pela groselha, gosta do aspecto competitivo do jogo. Podcaster e Youtuber busca mostrar como o Magic pode ser impactante na vida das pessoas
Redes Sociais: Facebook, Instagram, Twitter
Comentários
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- 17/02/2020 14:45
Ótimo texto, Miguel! :)
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- 15/02/2020 13:47

As aventuras não alteram tanto a estrutura tradicional da carta. O que ela realmente faz é dividir a Caixa de texto ao meio para dar a impressão da passagem de página, mas ótima observação!

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- 15/02/2020 13:45

Decidi não falar das split cards pq se você analisa bem elas nunca alteraram frame da carta e estão presente em diferentes frames. O que elas fazem é justamente dividir uma carta ao meio, mas as estruturas tradicionais ainda estão mantidas. Talvez as de hora da devastação se diferenciem um pouco mas as mudanças não foram tão relevantes assim, ainda sim, obrigado pelo elogio 3

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- 13/02/2020 17:31
Não sei se cabe falar, mas faltaram as split cards, como wear/tear de dragon's maze e levar // desespero de hora da devastação. a propósito, gostei do artigo
(Quote)
- 13/02/2020 11:54
aquele momento que você a pizzaria da sua cidade aparecendo em um artigo da Liga Magic!
outra coisa parabéns pelo artigo, muito bem explicado!
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