Teoria de Deckbuilding
18/03/2019 10:05 - 4,587 visualizações - 5 comentários

Olá! No artigo de hoje vamos falar novamente sobre a parte teórica do jogo, especificamente, Teoria de Deckbuilding e como gosto de classificar duas de suas possíveis abordagens: de formas "generalista" ou "metagamezada".


Considero essas as principais maneiras de decidir os slots flexíveis do seu baralho na hora de fechar as 75 cartas para um dado torneio. Esses slots podem ser aquelas 4 ou 5 cartas em que não há consenso de escolha entre a comunidade jogadora do arquétipo, geralmente tidos como "não essenciais" para uma estratégia rodar. Um exemplo são os slots de interação nos decks proativos ou no caso dos baralhos cujo plano é ser interativo, fechar as escolhas que dependem do restante do metagame como Moment of Craving vs. Cast Down, Fatal Push vs. Lightning Bolt, e os cards do sideboard. É possível, ainda, tentar misturar um pouco de ambas as abordagens, mas acaba-se correndo o risco de terminar no "meio-termo", onde o seu baralho acaba não sendo tão direcionado para enfrentar os decks Tier 1, tampouco abrangente o suficiente para escapar das mais diversas situações que um evento de muitas rodadas pode apresentar. Portanto, por hoje focarei nos "extremos" do pólo.
 

Abordagem "generalista"

 

A abordagem generalista de escolha para os decks significa optar por cards mais versáteis, ou mesmo uma maior variedade de escolhas, usando-se de menos cópias de cada uma delas. Geralmente essa escolha é ideal para um torneio grande de díficil previsibilidade, a famosa "selva", casos de Magic Fests, MCQs físicos e as antigas Finais de CLM. Desse modo, é possível deixar o deck repleto de opções caso algo fora do radar apareça em seu caminho.


Quem aproveita-se muito dessa teoria são os baralhos que costumam tanto arrastar a partida (controles, midranges) ou que acessam muitas cartas por jogo (com card draw, cantrips, seleção ou tutores). Por exemplo, não é raro no Standard termos sideboards com 1 Negate+1 Disdainful Stroke ou mesmo uma variedade de escolhas similares de forma mais diversificada (Esper Control com Kaya's Wrath+Cry of the Carnarium de sweeper e Mortify+Cast Down+ Moment of Craving+Vraska's Contempt de spot removal, sem usar 4 cópias de nenhuma delas; desse jeito ela tem a melhor ferramenta para cada trabalho, e com a ajuda de card draw encontra-as para as partidas corretas).


A desvantagem dessa abordagem, todavia, é que ela enfraquece o seu baralho ao entrar em um field "bitolado". Se você espera enfrentar Mono Blue Aggro toda rodada, Fungal Infection vira a melhor remoção do mundo para as 60 iniciais dos decks pretos, embora varie de "passável" para "injogável" contra outros adversários, e isso mesmo considerando baralhos cujo foco seja atacar com criaturas.


Além disso, corre-se o risco de comprar a "ferramenta errada" na hora errada - cenários desastrosos são comprar Moment of Craving ao encarar um Doom Whisperer ou Gruul Spellbreaker, ou Cast Down contra um Adanto Vanguard ou Judith, the Scourge Diva.


Outro exemplo de uma abordagem generalista, pensando num field como um todo até os tiers mais baixos, é a minha lista de BBE Shift do ano passado. Reclamation Sage vinha já no Main Deck para me livrar de situações problemáticas, como uma Lua ou Leyline de G1, da mesma forma que as Bloodbraid Elfs ajudavam no plano alternativo de atacar com bichos e também travando o chão ao trocar com atacantes do outro lado. A única carta que repete no sideboard é o segundo Obstinate Baloth; no mais, uma escolha variada de criaturas para aumentar a quantidade de matchups onde são relevantes. Huntmaster of the Fells é melhor contra Humans, Spirits e Taxes; Pia and Kiran Nalaar contra Affinity, Scales, Infect e decks de Blood Moon; Thragtusk encaixa melhor contra Gurmag Angler e Eldrazi decks, e todos são mais ou menos decentes contra matches de bichos num geral.


Da mesma maneira, Shatterstorm é melhor contra Scales, Affinity e Lantern, mas Ancient Grudge era mais rápido e podia pegar o combo do KCI de surpresa (além de matar uma Inkmoth Nexus), ou mesmo subir contra Tron na Play para matar um Expedition Map. Enquanto que o Abrade entrava como remoção a mais contra decks de Company e Vial, com Roast sendo melhor contra os mesmos decks que o Thragtusk era (Gurmag e Eldrazi). Seal of Primordium é um hate que caía no cascade do BBE, mas que não toma Torpor Orb ao contrário do Reclamation Sage. E por aí seguia a lista, com menos foco no Tier 1 e mais ferramentas diferentes para cada tipo de problema.
 

BBE Shift RPTQ
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03/12/2018
R$ 1.473,54
R$ 2.227,18
R$ 5.008,15
12529 visualizações
03/12/2018
Visualização:
Padrão
Cor
Custo
Raridade
Visual
CMC
Comprar Deck
Criaturas (13)
4  Ancião da Tribo Sakura  2,00
1  Sábio da Reivindicação  0,30
4  Elfo Tranças-de-Sangue   4,00
4  Titã Primordial   34,95
Mágicas (20)
2  Pacto do Invocador 49,48
3  Raio 8,99
4  Busca Longínqua  0,65
4  Buscar pelo Amanhã  0,10
3  Fúria dos Deuses   5,00
4  Metapaisagem   50,00
Terrenos (27)
3  Clareira das Cinzas6,98
4  Contraforte Arborizado89,99
3  Floresta0,00
6  Montanha0,00
4  Solo Pisoteado36,42
3  Urzal Ventoso40,00
4  Valakut, o Pináculo Derretido52,00
60 cards total

Sideboard (15)
1  Jaula do Escavador de Túmulos 7,38
1  Lua Alpina 7,64
1  Relíquia de Progenitus 14,95
1  Abrasão  3,50
1  Calcinar  0,19
1  Esfera Amortecedora 6,00
1  Rancor Antigo  0,69
1  Selo do Primórdio  0,19
1  Rastreador Incansável  39,50
2  Baloth Obstinado   3,00
1  Mestre de Caça da Derrubada   17,85
1  Pia e Kiran Nalaar   0,99
1  Tempestade Estilhaçadora   2,05
1  Thragueopresa  4,00

 

Abordagem "metagamezada"

 

Essa é uma abordagem geralmente emplacada em torneios onde o field é "teoricamente" mais previsível, como Pro Tours, Mythic Championships, Day 2 de Magic Fests/SCG Open, e similares. As ligas competitivas do Magic Online e ranqueadas no Mítico do Arena também podem ser enquadrados aqui, geralmente apresentando uma homogeneidade maior nos baralhos mais utilizados de acordo com o momento.


Por conta disso, os jogadores acabam sendo muito mais agressivos na hora de tomar determinadas decisões nos slots finais de seus baralhos, muitas vezes optando por ignorar uma parcela de decks que consideram que vai ser inexpressiva numericamente falando. É comum vermos reports de pro players após um grande evento onde eles deliberadamente falam sobre como escolheram ignorar um determinado baralho na hora de montar o sideboard, "aceitando" perder aquela match para manter percentuais contra os principais decks do metagame.


Colocando em termos práticos, podemos ver que as listas dos torneios Modern no Magic Online estão cada vez mais caminhando para esse espectro. Surgical Extraction main deck é o principal exemplo: a maioria das listas de Izzet Phoenix estão adotando para enfrentar principalmente a mirror (e pegar como "splash hate" Dredge e outros baralhos de cemitério). Isso funciona maravilhosamente quando podemos esperar enfrentar decks onde ela é relevante múltiplas vezes em um evento, e aí o slot dedicado vai trabalhar e se justificar.


Só que existem vários outros oponentes onde o card é irrelevante, seja por não serem baralhos de sinergia de cemitério (onde os cards que você quer alvejar com Surgical não vão para lá naturalmente) ou até mesmo pelo fato do Phoenix não ter como colocar outros tipos de cards ali através de suas próprias peças (um Ghost Quarter para Tron Land, descarte para combos como Ad Nauseam ou Amulet Titan, e por aí vai). Com sorte, uma das poucas interações condicionais "dá certo" (Izzet Charm/Lightning Bolt) e dá pra fazer o Surgical funcionar, do contrário, vai ser uma desvantagem de cartas bem real somente para conjurar aquela terceira mágica num turno de Phoenix.


Esse é um dilema presente e com um custo bem real - para cada partida ganha exilando todas as Phoenix ou um Stinkweed Imp do oponente, vão ter várias outras onde o Death's Shadow ou o Burn vão capitalizar no fato de você ter uma carta "de verdade" a menos. E a situação só aumenta quando colocamos outros decks Tier 2 na mistura, o que provavelmente vai se assimilar mais ao field que espero enfrentar no Magic Fest daqui a menos de um mês.


Para manter o exemplo dessa abordagem no "mesmo baralho" exemplificado na outra categoria, a lista a seguir foi a que eu utilizei na Grande Final do CLM 12, em fevereiro desse ano. Flame Slash está ali para matar Thing in the Ice, Courser of Kruphix contra Burn, e somente Anger of the Gods para lidar principalmente com Dredge e outros decks de cemitério ao invés de tentar contornar Meddling Mage ou reciclar, como Sweltering Suns. No sideboard, três Obstinate Baloth são melhores contra Burn, sem diversificar bichos, enquanto Damping Sphere em maior quantidade resolve contra Tron e outros combos.

 

RG Valakut
Evento:
12810 visualizações
08/02/2019
R$ 1.535,74
R$ 2.306,25
R$ 7.691,28
12810 visualizações
08/02/2019
Visualização:
Padrão
Cor
Custo
Raridade
Visual
CMC
Comprar Deck
Criaturas (10)
4  Ancião da Tribo Sakura  2,00
2  Centaura-caçadora de Crufix   10,79
4  Titã Primordial   34,95
Mágicas (21)
2  Pacto do Invocador 49,48
2  Golpe Ardente 0,49
2  Raio 8,99
3  Busca Longínqua  0,65
2  Explorar  0,20
4  Buscar pelo Amanhã  0,10
2  Fúria dos Deuses   5,00
4  Metapaisagem   50,00
Encantamentos (2)
2  Expedição ao Coração de Khalni  0,25
Terrenos (27)
3  Clareira das Cinzas6,98
4  Contraforte Arborizado89,99
3  Floresta0,00
6  Montanha0,00
4  Solo Pisoteado36,42
3  Urzal Ventoso40,00
4  Valakut, o Pináculo Derretido52,00
60 cards total

Sideboard (15)
1  Explosivos Fabricados 78,00
1  Jaula do Escavador de Túmulos 7,38
1  Relíquia de Progenitus 14,95
1  Calcinar  0,19
3  Esfera Amortecedora 6,00
1  Fúria dos Deuses   5,00
1  Rastreador Incansável  39,50
2  Sábio da Reivindicação  0,30
3  Baloth Obstinado   3,00
1  Colosso Camaleão   7,99

 

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Para concluir, não considero nenhuma das abordagens "errada" ou "certa" em definitivo, e sim, algo a ser levado em mente para a hora em que precisarmos tomar decisões relevantes nas escolhas dos nossos decks voltadas para eventos específicos. Por exemplo, para jogar todo o dia no Magic Online ou no MTG Arena, ou mesmo torneios onde o metagame vai ser mais previsível (um Mythic Championship ou Invitational) provavelmente uma abordagem de metagame vai nos trazer um retorno muito mais imediato.
 

Entretanto, em um torneio grande aberto, onde podemos esperar gente de todos os lugares e com todos os tipos de preferências quanto a decks (caso do Magic Fest), a abordagem generalista nos deixa mais bem equipados para enfrentar uma gama muito mais variada de potenciais oponentes.
 

E quanto a vocês, leitores, qual das abordagens preferem? Há algum outro método que usam para nortear suas escolhas finais nas decklists? Deixem suas opiniões nos comentários!


Abraços e até a próxima!

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Matheus Akio Yanagiura (VIP STAFF sandoiche_13)
Matheus Akio Yanagiura, mais conhecido como Sandoiche, começou a jogar em 2003, em Flagelo. Está sempre na vida do grind dos torneios, com destaque para o título do CLM 10 Modern, o maior realizado até então, e o Top 16 no Grand Prix São Paulo 2018. É um entusiasta do Magic competitivo e totalmente dedicado à produção de conteúdo referente ao jogo, publicando artigos periodicamente desde 2012, colaborando para o Blog da LigaMagic desde 2015 e atualmente produz vídeos em seu canal no YouTube Sandoiche's Grind e streama ao vivo regularmente na Twitch.
Redes Sociais: Facebook, Twitter
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Comentários

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Fabioliveira (19/03/2019 21:36)

Ótimo artigo

deltreepedro (18/03/2019 18:32)

Excelente artigo. Tenho testado a lista de courser e parece bem consistente pro meta atual.
Fiquei com uma dúvida. Porque 3 florestas básicas? 2 não são suficientes?
Valeu.

tattoowalker (18/03/2019 17:10)

Excelente análise. Antes de dizer que Magic é muito foda gostaria de expressar minha maravilha por este card game e sua gama incrível de aplicações filosóficas e estratégicas. Magic é muito foda

Bruno_Orelha (18/03/2019 15:06)

Bem dahora a abordagem dos dois tipos de deckbuilding, Sanduba. A galera acaba esquecendo que os fields mudam, e as vezes copiar uma lista de GP pode não ser tão boa pro seu FNM.

DiegoKarmo (18/03/2019 11:50)

Fantástica opinião sobre Build!
Tenho muito que aprender ainder e esses tipos de artigos geram muito valor em conhecimento! Vlw sanduba! Topzeraa