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Bancada do Juiz: Pense Cavalos, não Zebras
Identificando o Cheating.
29/10/2018 10:05 - 3.426 visualizações - 14 comentários
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“Tu viste aquele player no Pro Tour que desceu um terreno a mais?”
“Vi sim! Mó ladrão!”
“Ladrão? Mas como tu sabes que ele tava roubando?”
“Então…”
 
Olá, pessoal! Sejam bem-vindas a Bancada do Juiz! Puxem uma cadeira e fiquem à vontade, que vamos tratar de um assunto um pouco mais complicado.
Nos últimos anos, tivemos muitos casos de pessoas trapaceando durante um jogo sendo pegas, seja pelo olhar vigilante de judges e players, seja por espectadores assistindo uma partida gravada ou transmitida em tempo real. Enquanto isso mostrou alguns exemplos de “o crime não compensa”, também gerou um sentimento exacerbado de julgar a atitude de pessoas alheias, principalmente se estiverem em alguma posição de destaque. Consequentemente, temos um aumento em quantidade de pessoas clamando sobre “cheaters” (pessoas que trapaceiam) no Magic.
 
Ué Judge… mas isso é tão ruim assim?
 
Imagine que a primeira impressão ao se pesquisar nosso jogo seja de “um ambiente dominado por cheaters”. É compreensível que as pessoas tentem alertar a comunidade sobre uma possível trapaça acontecendo. No entanto, fazer isso sem conhecimento pode gerar muito mais alvoroço do que conscientização.
 
Faz sentido. E como melhoramos isso?
 
Primeiro de tudo, precisamos saber a diferença entre um erro e uma trapaça, dentro do Magic. Para isso, comecemos com a definição de Trapaça:
Guia de Procedimento para Infrações (IPG) - REL Competitivo
 
4.8. Conduta Antidesportiva - Trapaça
 
Definição
 
Uma pessoa quebra uma regra definida pelos documentos de torneio, mente para um oficial do torneio, ou nota uma ofensa cometida por si (ou por um colega de time) em uma partida e não alerta sobre ela.
Adicionalmente, a ofensa precisa cumprir com o seguinte critério para ser considerada trapaça:

O jogador precisa estar tentando ganhar vantagem através de sua ação.
● O jogador precisa estar ciente de que está fazendo algo ilegal.
 
Se todos os critérios não forem preenchidos, a infração não é Trapaça e deve ser tratada como uma infração diferente. Trapaça muitas vezes surge como fruto de um Erro de Jogo ou Erro de Torneio e necessita ser investigada pelo juiz ou juíza para se determinar a intenção e consciência.
 
Vamos dar uma olhada na parte em negrito. Existem dois requerimentos básicos para que uma trapaça aconteça: a pessoa deve estar quebrando as regras para ganhar vantagem, bem como deve estar fazendo isso conscientemente.
 
Mas pera aí, judge… ninguém vai sair admitindo “não, eu fiz de propósito para ganhar vantagem”.
 
Realmente, os casos de admissão de trapaça são raríssimos - normalmente, acontecem devido à players com má informação dada por “house rules” (regras específicas para os locais em que jogam), explicações erradas e inexperiência. É aí que entra a diferença de judges experientes, que trazem o diferencial de treinamento e experiência para fazer investigações. O fato é que, num torneio de Magic, tais investigações são feitas com o intuito de atrasar o torneio o mínimo possível. Portanto, judges principais de torneios maiores tendem a ser pessoas com uma grande carga de experiência investigativa.
 
Tá, judge… eu acho que eu entendi onde queres chegar.
 
Pois fique à vontade!
 
Então, se é necessário que haja uma intenção de quebrar as regras… não dá para saber com certeza se foi uma trapaça sem falar com a pessoa, é isso?
 
Perfeito! Existem casos em que a irregularidade é gritante, de forma que é possível assumir com segurança uma intenção. No entanto, extremos tendem a ser fáceis de lidar, e são aquelas situações em “áreas cinzentas” que acabam gerando a maior parte do alvoroço.
 
 
Pessoas que trapaceiam não são uma parte boa da comunidade, e é normal que a comunidade repudie tal atitude nociva. “Ninguém gosta de cheaters” é algo que se ouve com bastante frequência - dentro e fora do Magic. Assim como é importante apontar quando algo de errado acontece, para que pessoas que agem fora das regras não saiam impunes, bom senso e conhecimento antes de simplesmente chamar alguém de cheater ou de ter agido de má fé protege a reputação do Magic e de sua comunidade. Ninguém quer jogar um jogo ou participar de uma comunidade cheia de cheaters.
 
Saquei. Ei, judge… tu podes falar mais sobre algumas coisas que usam numa investigação?
 
Existem dois tipos de trapaça: a oportunista e a premeditada. Como os nomes já dizem, uma acontece quando a oportunidade surge: oponentes que colocam uma criatura que não deveria morrer no cemitério, conjurar um Veredito Supremo sem ter {W}{W}, etc. Por outro lado, a premeditada é aquela em que se vai até o evento planejando fazer: treinos de embaralhamento com manipulação de baralho, comprar cards extras, etc. Convenhamos: quem já viu os vídeos de pessoas pegas trapaceando em câmera deve imaginar o quanto essas pessoas treinaram para conseguir fazer tais manobras tão rápido.
 
Dentre estes dois tipos, a trapaça oportunista é a mais comum. Quando emoções começam a afetar o desempenho e um objetivo se encontra mais perto, algumas pessoas cedem ao “caminho mais fácil”. No fim das contas… a ocasião faz o trapaceiro.
 
Um dos aspectos mais usados durante uma investigação é o conceito de Risco x Recompensa. Em termos simples, é uma análise do risco que a pessoa investigada tem e a recompensa que receberá caso de certo. Uma jogada ilegal, dando uma grande vantagem a uma pessoa, que acontece numa mesa 0-4 de um GP é, normalmente, menos suspeita que a mesma jogada ilegal que acontece numa partida de “win and in” (em que a vitória vale a entrada no top 8) deste mesmo GP.
 
Pera Judge… tu estás dizendo que pessoas que estão mal num torneio não são investigadas?
 
Não, nada disso. Toda vez que atendemos uma partida, temos que ter em mente a possibilidade de que alguém está agindo de má fé. É bom lembrar que, quando uma mesa está parada para uma investigação, o torneio inteiro sofre. Portanto, enquanto damos nosso melhor para que a situação seja investigada da melhor forma, prezamos para que o torneio corra bem como um todo.
 
Dentro do escopo de Risco x Recompensa, vamos analisar os casos, usando as seguintes informações: num GP temos 8 rodadas no primeiro dia, 7 no segundo; Para chegar ao segundo dia do evento, normalmente são necessários 18 pontos, ou seja, um resultado 6-2-0 ou melhor.
 
 - No primeiro caso, temos duas pessoas com o resultado 0-4. Essas pessoas não vão jogar o segundo dia do evento, pois seus resultados não chegam aos 18 pontos necessários. Sendo assim, existe um risco de desclassificação para uma recompensa pequena, quase nula;
 - No segundo caso, temos duas pessoas lutando pela vaga do top 8, um dos maiores objetivos em um GP. É uma recompensa imensamente superior ao primeiro caso e, para alguns, pode valer o risco de tal trapaça “passar despercebida”.
 
Entendi, Judge. Quanto mais vale a partida, mais a balança se nivela. Faz sentido.
 
Acredito que esteja bem claro, mas vou reiterar: o objetivo deste artigo não é, em nenhum momento, sugerir que pessoas devam ponderar Risco x Recompensa, muito menos trapacear caso tal recompensa “valha a pena”.
 
Trapaças sempre serão uma mancha em nosso jogo, em nossa comunidade, que acabam muitas vezes sendo o “peso de um grupo” ou “peso de uma maioria”, quando uma comunidade inteira paga o pato pela má atitude de uma pessoa. Ironicamente, tende a ser a própria comunidade que gera essa mancha, gritando “trapaceiro” sem uma compreensão plena do que isso significa para a comunidade de Magic. Enquanto não creio que este artigo mudará coisas imediatamente, espero que sirva para abrir os olhos, para que tratemos com mais apreço nossa comunidade. Muito obrigado pela atenção!
 
Caso tenha dúvidas, entre em contato conosco na página facebook.com/BancadadoJuiz, no Facebook!
 
Lembrem-se sempre: qualquer problema na sua partida, CHAME JUDGE!
 
Qualquer dúvida relacionada a Magic, FALE COM JUDGES!
 
Um grande abraço e até a próxima!
 
 
André Tepedino ( Tepedino)
Juiz desde 2004, conta com boa experiência de eventos brasileiros e internacionais. Entusiasta apaixonado pelo jogo, sempre está disposto a contribuir para o crescimento e melhoramento da comunidade. Quando descobriu que não jogaria mais competitivo por preferir arbitrar, optou por jogar Commander casual para se divertir.
Redes Sociais: Facebook, Twitter
Comentários
Ops! Você precisa estar logado para postar comentários.
(Quote)
- 05/11/2018 17:37
Obrigado pelo esclarecimento! Abraço
(Quote)
- 01/11/2018 14:29

Desde que um nao esteja condicionado ao outro, sim.

"Vamos splitar?" Depois da resposta "vamos dar ID" é ok.

"Se tu aceitares o split, a gente empata" nao é ok.

(Quote)
- 01/11/2018 09:36
Bom dia!
O famoso "ID-SPLIT", ou seja, "dar ID e splitar a premiação" ou até "eu concedo pra você e splitamos a premiação", é permitido?
(Quote)
- 01/11/2018 00:34

Opa, tudo bom?

Então, empates, desde que nao sejam influenciados por coisas externas ou ofertas diretas, sao permitidos. Ambos os casos sao bastante comuns. O segundo, inclusive, acontece em níveis mais altos como GPs e Pro Tours.

(Quote)
- 31/10/2018 17:43
Tenho também dúvidas a respeito de combinação de resultados. Isso é trapaça ou não?

Exemplos:

1 - Campeonato de FNM simples, com 12 jogadores. Dois jogadores abrem 3/0/0 e em um jogo de quarta rodada decretam um empate (sem jogar) para não correrem o risco de perder a premiação. Isso é permitido ou é trapaça?

2 - Campeonato REL regular, com n jogadores. Na sétima ou oitava rodada dois jogadores que estão no topo da tabela decretam empate (sem jogar) para passar para um top 8. Isso é permitido ou é trapaça?

Os dois exemplos podem parecer idênticos, mas um tem o objetivo de premiação e o outro de classificação, e aí, qual é a interpretação nestes casos?

Ajude aí!
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