A Temida Mirror Match
09/03/2018 10:00 / 3,393 visualizações / 2 comentários

 

 
 
Olá! "Conheces teu inimigo, conhece-te a ti mesmo, cem vezes serás vitorioso". Nunca a frase de Sun Tzu em "A Arte da Guerra" fez tanto sentido (bom, talvez não da forma mais literal, já que 100% de aproveitamento parece bem pretensioso em se tratando de Magic: the Gathering). Mas a frase encaixa especialmente bem para o artigo de hoje, onde pretendo compartilhar algumas maneiras de encarar a temida Mirror Match, ou seja, quando o deck do seu oponente é mesmo que o seu, e como tentar sair vitorioso na maior parte desses confrontos. Você mesmo é o inimigo, e seu inimigo é você!
 
Saiba as cartas que importam
 
Tanto num jogo rápido com ambos "de peito aberto" curvando e raceando, como num embate de lategame entre controles, existem algumas cartas que importam mais que outras, ou mesmo algumas que importam "tudo" enquanto outras "nada". Não interessa o quão problemática seja resolver uma Rekindling Phoenix, se você só tem um Vraska's Contempt na mão, prolongue o máximo que der com Virtuoso, tentando racear, ou mesmo tomando um 2x1 em remoções de menor valor como Abrade/Magma Spray, para ter a segurança contra The Scarab God se você não tiver como fechar a partida antes dele ficar ativo.
 
No antigo formato pré-ban de Attune with Aether, não importava o quanto Virtuoso era incômodo ou se matar um Refiner "na curva" parecesse bom na mirror de Temur Energy, o Harnessed Lightning era muito mais importante como proteção anti-Glorybringer, e fazia toda a diferença para responder o do cara na vantagem de mana e impedindo de ser clockado pelos céus quando a mesa "travava" pelo chão.
 
Em mirrors de Control, muitas vezes anular aquele Glimmer of Genius  parece bom... mas talvez fosse melhor guardar toda a munição para as counterwars envolvendo as cartas-chave como Approach of the Second Sun, Drake Haven ou Torrential Gearhulk, já que você de Controle também tem acesso à formas de gerar card advantage.
 
O ponto crucial aqui é saber qual carta é importante, e trabalhar para reduzir ao máximo o impacto da do oponente enquanto busca janelas de oportunidade para potencializar a sua.

Deckbuilding: a vantagem começa aqui
 
Cartas que dão vantagem para a mirror sem sacrificar slots contra outras matches são seus melhores aliados. Uma boa forma de ir ganhando pontos nas mirrors é dedicando flex slots e escolhas divergentes entre as listas com cartas pensadas especialmente para tal. Joga de Mono Red no Standard? Completar a curva 3 com Pia Nalaar e a 1 com Soul-Scar Mage ao invés de Captain Lannery Storm e Fanatical Firebrand são escolhas que se sobressaem na mirror, e cumprem sua função de curvar nas outras matches, no máximo com um pouco menos de agressividade que as opções deixadas de lado.
 
 
Da mesma forma, um Mardu Veículos pode optar por Abrade ao invés de Lightning Strike para ter como remover os veículos do oponente ainda no G1; ou um Approach pode usar algumas cópias de Disallow no MD ao invés de depender somente de Censor/Supreme Will, tendo um hard counter forte para punir a mirror. São escolhas que nem sempre vemos todas as listas adotando, mas as que usam já saem com vantagem crucial logo no primeiro game.
 
Slightly bigger, slightly smaller, much bigger, much smaller
 
Aqui entramos no clássico "Who's the beatdown". Geralmente são esses níveis que os decks usam para definir sua atuação na mirror. Em tradução literal, seria "levemente maior, levemente menor, muito maior, muito menor". Na prática, significa diminuir ou aumentar a curva do seu deck de acordo com o que você espera que o oponente faça.
 
Slightly bigger, ou levemente maior, acaba sendo um dos melhores níveis para se estar em mirrors de Aggro. Significa que sua curva é ligeiramente maior que a do oponente; não a ponto de ser curvado por aberturas agressivas, mas apenas o suficiente para que as aberturas rápidas do adversário sejam superadas por jogadas um pouco maiores que permitem ganhar o controle da mesa. Exemplo: subir Pia Nalaar ou Aethersphere Harvester na mirror de Mono Red, que enquanto são cartas mais pesadas que a curva 1 e 2, ainda conectam rápido o bastante para bloquear os Bomats e Khenras que caem de começo.
 
Slightly smaller, ou levemente menor, é um dos níveis em que geralmente os baralhos não gostam de estar, mas acabam ficando em momentos onde não é possível priorizar a mirror, e sim outras matches, e a curva ou o plano de sideboard acaba ficando "raso", mas sem ter como deixar o deck "muito menor" que o do oponente para tentar curvá-lo. Por exemplo, podemos ter uma pseudo-mirror de Mardu com Veteran Motorist contra Walking Ballista; o jogador do Motorista não tem como tirar todos os x/1 do deck por não ter muito mais o que sidear, mas sabe que está correndo risco contra a curva ligeiramente mais pesada do oponente com a Ballista para fazer 2x1s contra as cópias adicionais de x/1s que ele não consegue tirar.
 
Much bigger, ou muito maior, acaba sendo o que vemos mais em mirrors de Midranges ou Controles que não tem como punir uns aos outros por demorarem para desenvolver o jogo. É subir aquele Nicol Bolas ou Elspeth, Sun's Champion para resolver o jogo, enquanto o oponente só tem Glint-Sleeve Siphoner ou bichos pequenos, como Lingering Souls e Grim Flayer/Goyfs que não fazem frente ao poder dessas bombas. O risco desse nível é quando o oponente acaba indo "muito menor", ele pode acabar conseguindo curvar e matar rápido enquanto você só faz land drops, remoções que podem não alinhar corretamente, e cartas que custam 7 na mão. Um bom exemplo é quando os Mono Reds sobem vários Glorybringer, Phoenix e Hazoret na mirror visando ganhar o late game nas bombas e voadores, mas acabam morrendo para uma curva de drop 1, drop 2, drop 1+drop 2 e Hazoret.

Por fim, o much smaller, ou muito menor, é exatamente o contrário do exemplo acima. Você espera que o oponente vá jogar pesado com cartas grindy, planeswalkers e bombas, e você volta pro plano mais curvado e "pro chão" possível. Por exemplo, numa mirror de BG Cobra, seria tirar bichos pequenos em prol de Gonti, Chupacabra, Nissa e Skysovereign, e então o oponente curvar criaturas mais fracas com Blossoming Defense e dano direto da Walking Ballista antes de você estabilizar.
 
Embora seja mais fácil de enxergar esses exemplos em mirrors de decks aggros ou midranges, é possível enxergarmos também em partidas como Controle e Combo. Por exemplo, numa mirror de Storm, você pode acabar muito grindy sideando cartas mais leves e que permitem um goldfish rápido em prol de Pieces of the Puzzle e diversas counterspells, e o oponente simplesmente ignorar todo o sideboard e ir all-in no combo no turno 3 sem respeitar nada (enquanto você foi "much bigger", ele optou por "much smaller" e te ganhou no fator tempo). Enquanto que essa mesma abordagem poderia dar certo caso o oponente pense em fazer a mesma coisa, jogando em um plano com mais interação e hates pro combo alheio, mas talvez sem subir os Pieces of the Puzzle (nesse caso, você foi "slightly bigger", o que geralmente é ideal em mirrors).
 
Muitos gostam de categorizar mirrors de Combo, Big Mana e outros aggros lineares (principalmente no Modern) ao fator "rolagem de dados". Embora isso tenha um fundo de verdade influenciando em talvez 80-90% dos games, eu vejo o Modern como um formato onde nossos treinos e boas decisões influenciam os 10% restantes - cabe a nós, enquanto pilotos, colhermos bons frutos de quando esses 10% aparecerem na nossa frente. Essas "edges" minúsculas são o que acabam fazendo diferença no longo prazo e separam os bons jogadores e especialistas do Modern de outros que preferem reclamar do formato ao invés de "colocar a mão na massa".
 
Esteja preparado para o que der e vier, planejando o jogo longo
 
Se ambos os decks são mais equipados com remoções e formas de gerar card advantage  (draw, recursão, planeswalkers) do que "threats de verdade", a partida vai se arrastar para o late game. Millar o oponente é perfeitamente plausível em mirrors de Control, como pudemos ver na épica partida entre o PVDDR e o Raphael Levy no último Pro Tour Modern. Caso ambos os jogadores abram de "terreno, vai" ou "bicho, mata, bicho, mata" até o turno 6, é bom já ir se preparando e priorizar fazer todos os land drops para vencer aquela counterwar importante no turno 12, ou então fazer duas threats pesadas por vez para tentar sobrecarregar as respostas do oponente e quem sabe encaixar algo que possa fechar o jogo.

O que eu mais gostava de fazer no Standard do ano passado enquanto jogava de U/R Control era, depois de fazer vários land drops e acumular recursos na mão, forçar uma counterwar no final do turno do oponente de modo que eu "deixava" ele resolver o Torrential Gearhulk, desde que passasse com as manas totalmente viradas. Então, no meu turno, eu resolvia o Gearhulk com um dos vários Harnessed Lightning que ficavam mofando na mão, e encaixava o Kefnet, o Consciente que salvo algumas poucas listas que tinham Commit // Memory, nenhum outro control conseguia responder, e o Deus me levava para a vitória.
 
E por fim, surpreenda o oponente!
 
Sem medo de surpreender o oponente - agir completamente fora da caixinha com cartas inusitadas (ou que não deveriam estar no pós-side) muitas vezes dão aquele "glu-glu ié-ié" no oponente, que toma uma jogada inesperada devastadora. Deixar algumas Cóleras na mirror de Control ou alguns counters na mirror de Aggro-Tempo, e o oponente ignorar completamente jogar em volta dessas cartas são exemplos. Se você perceber ele jogando de maneira displicente no G2, pode ser uma boa voltar algumas dessas cartas "ruins" no G3.

Uma das formas mais "groselha", mas que por incrível que pareça, funciona uma quantidade não-zero de vezes, é começar a descer os Símios e bater com eles na mirror de Ad Nauseam. Ambos os decks possuem pouca interação, e nenhuma dessa interação é boa em lidar com o Angel's Grace do oponente. Então muitas vezes na mirror o jogo se arrasta, com os dois jogadores respeitando um ao outro, já que qualquer tentativa de combo que seja frustrada pode resultar numa dolorosa morte por SBE ao passar do turno.
 
Isso abre janela pros jogadores terem mana excessiva para combar entre Lotus, Prismas e terrenos em jogo, e começam a bater uns nos outros com agora dispensáveis Simian Spirit Guide, "forçando" o outro a combar e perder pra Pactos/Angel's Grace/combo em resposta. Por mais surreal que pareça, com um foco total no combo o deck não tem formas de jogar um jogo "de verdade" de Magic, com criaturas e remoções, podendo acabar vítima da horda furiosa de macacos!
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E quanto a vocês pessoal, como enxergam as mirrors? Quais dicas e truques vocês utilizam para ganhar com seus respectivos decks? Sentem alguma diferença notável entre decks, formatos, ou mesmo pilotos? Deixem suas opiniões nos comentários!

Abraços e até a próxima!
 
 
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Matheus Akio Yanagiura (VIP STAFF sandoiche_13)
"Matheus Akio Yanagiura, mais conhecido como "Sandoiche", começou a jogar em 2003, em Flagelo. Representando a House of Cards, está sempre na vida do grind dos torneios em SP, tendo sido campeão da Grande Final do CLM 10 Modern, a maior até então. Como entusiasta do Magic, principalmente do competitivo, Sandoiche está sempre acompanhando todo o tipo de conteúdo publicado, buscando aprender e evoluir o quanto puder. Começou a publicar artigos sobre Magic periodicamente em 2012, colaborando para o Blog da Ligamagic desde 2015."
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Comentários

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VIP OURO AdrianoTT (09/03/2018 14:50:50)

Jogar contra Mirror, é sempre algo complicado, só é algo na faixa de 50/50, quando os 2 jogadores tem o mesmo nível, e ficam a depender da "sorte ou azar". Agora, se um dos 2 for bem melhor e conhecedor do deck, ai complicou pro adversário.

Joguei um campeonato no último final de semana e só "perdi feio" para uma Mirror do meu Deck. 1o. game, "floodei" total eram 15 pântanos do campo... No 2o. game, apenas 2 pântanos até quase o final, quando baixei o 3o. pântano já estava com o "pé na cova". Complicado... :(

Gostei do artigo, mas não entendi quase nada, já que você falou de cartas de formatos que não conheço nenhuma carta. :P

HHHH (09/03/2018 13:51:33)

Excelente artigo, mais uma vez!