Máscaras de Mercádia  - Parte X
17/09/2017 10:00 / 1,305 visualizações / 4 comentários

 

Máscaras de Mercádia  - Parte X

 

Ouramos!

 


ma nuvem negra cobriu toda cidade de Mercádia.


Ventos uivavam, a chuva torrencial caía como se fosse pedra sobre os telhados. O sol se escondera e as ruas estavam vazias. Somente restara nas ruas às poças d’água e lama. Não havia alma viva nas ruas exceto por... sombras. Não, aquilo não eram sombras. Eram pessoas.
 

Dentro da tempestade havia pessoas. Pessoas estavam adentrando Mercádia, mas de uma maneira imperceptível para olhos normais. Porém, os olhos do Evincar não eram normais. Da torre do magistrado, Volrath percebera o que se estava passando. Ele sabia que aquela tempestade era fora do comum. Magia. Alguém a convocara para recair sobre Mercadia. Mas quem? Não importava, ele havia percebido figuras naquela tempestade, pessoas com capas flutuantes que caiam sobre a cidade sem ninguém perceber.

 

 

Mas não era somente rebeldes que estavam no meio daquela tempestade. Em meio aquela tormenta, uma figura icônica caminhava alegremente em direção a prisão de Gerrard e seus amigos. Lógico que havia uma guarda tomando conta dos prisioneiros políticos, mas diante da atual circunstância, não se podia afirmar quem eram os verdadeiros prisioneiros: os guardas ou Gerrard.


Encharcados, molhados e cansados, o pequeno contingente somente pensava em suas camas secas e confortáveis. Bem, parece que o desejo deles estava para se realizar. Squee, um lorde Kyren, se aproximara dos guardas e, ao presenciar o estado lastimável deles, alegremente, deu uma ordem para que eles fossem embora e descansassem. Era tão bom que alguém tivesse se lembrado dos pobres guardas. Sem pensar duas vezes, eles partiram e deixaram o goblin com os prisioneiros. Afinal, ele era um Kyren, então poderia fazer o que quisesse com eles. Mas, rabugento como sempre, Gerrard questionou o grumete se ele não poderia ter esperado pela tempestade passar.
 

A resposta que veio da tempestade o surpreendeu. 
 

“Nós trouxemos a tempestade.”
 

Orim. 
 

Ela adentrou a cela com sua capa molhada. A magia de água dos Cho-Arrim que trouxe a tempestade. Cho-Arrim podiam trazer rios correrem sobre terras áridas e percorrerem através do céu. Ele estava jubiloso ao reencontrar sua companheira, ainda mais depois dos rumores de Takara sobre seu aprisionamento e o roubo da Matriz de Energia. De fato, tudo aquilo acontecera e ela ainda estaria lá se não fosse por Cho-Manno.
Foi nesse momento que o Comandante Benaliano percebeu a presença do líder rebelde.


Com um olhar respeitoso, ele estendeu a mão e pediu desculpas pelos fatos ocorridos no massacre dos Cho-Arrim.

 

“Os arrependimentos do passado são muitos – muitíssimos. Nós não podemos deixá-los condenar o futuro.”

 

Com essa frase, ele interrompeu Gerrard e estendeu a mão de volta em sinal de uma recente aliança firmada.

 


Cho-Manno então começou a explicar o que estava acontecendo.


Assim como os mercadianos conseguiam controlar as areias para cruzarem Mercádia, assim Cho-Arrim controlavam as águas e as correntes de ar quente para levarem seu povo. Naquele exato momento, rebeldes enchiam a cidade prontos para iniciarem uma revolta.
 

Hanna foi a próxima a surgir da tempestade. E apesar de Gerrard desejar se aventurar ao lado dela outra vez, ela se interpôs dizendo que ele devia partir em busca dos Ossos de Ramos. Enquanto ele partia atrás das relíquias, ela levaria o restante da tripulação de volta ao Bons Ventos e isso incluía Takara. Como nenhuma delas estava ciente da situação, Tahngarth simplesmente disse que era melhor deixá-la para trás.
 

Os Ossos de Ramos foram mencionados, mas Gerrard fazia à mínima ideia do que aquilo se tratava. Ele não estava familiarizado com as lendas e foi Hanna que explicou que eles eram a peça final para fundir o motor com a Matriz de Energia e tornar o navio ainda mais potente do que já era. Porém todas as demais explicações seriam feitas no caminho. A tempestade não duraria para sempre, nem a estupidez dos mercadianos. Eles partiram se aproveitando das sombras e das águas que encobriram sua fuga.
 

Da torre do magistrado, Volrath continuava observando os rebeldes romperam sobre Mercádia. E entre aqueles que apareciam nas sombras, ele vislumbrou um grupo ímpar. Era Gerrard e Cia. Sim, seu meio irmão escapara. Mas aquilo não era um problema, na verdade, era parte do plano dele, ou melhor, de Takara. Takara falaria sobre os cristais e levaria Gerrard para recuperá-los, mas para sua felicidade, Gerrard escapara por conta própria. Ele estava fazendo conforme os planos do Evincar. Agora, tudo o que ele tinha que fazer era segui-lo até os cristais e destruí-lo no processo.
 

A tripulação estava reunida outra vez, apenas para logo se separarem. Hanna, Squee e Karn ficariam para procurar pelo Bons Ventos. Orim, Cho-Manno e Lahaime se encontrariam com os Ramosianos e começariam a fomentar a rebelião contra os governantes Mercadianos e os Kyren. Gerrard, Sisay, Tahngarth e outros cinco membros da tripulação pegariam os mapas providenciados por Cho-Manno e procurariam por Ouramos, onde jaziam os Ossos de Ramos.


Para saírem da cidade, Gerrard e os outros teriam que fazer conforme os rebeldes. Vestirem a capa como se fossem esquilos voadores e deixar com que os magos fizessem o resto. Ele não estava muito certo se aquilo era algo seguro a fazer, muito menos Tahngarth o que seria uma visão ainda mais estranha por se ver uma “vaca voadora”. A piada de Sisay não o deixou muito alegre.
 

A tempestade estava perdendo força. O grupo saltou dentro da escuridão e deixou com que o vento os guiasse. Bastava apenas planar em meio a tempestade. Assim que chegassem ao seu destino, lá eles pegariam os Jhovalls e suprimentos e antes da aurora eles teriam deixado a cidade a caminho de Ouramos. 
 

Planar era a parte fácil, mas a aterrissagem cabia a eles realizarem. Eles avistaram um curral de Jhovalls e tentaram pousar. Com dificuldade e um pouco de lama no rosto, Gerrard conseguiu aterrissar. Os outros logo seguiram e começaram a descer. Sisay, Tahngarth, Chamas, Tallakaster, Fewsteem, Dabis e Ilscater – todos tripulantes do Bons Ventos – aterrissaram, mas por último uma figura magra e forte, que acabara de fechar sua capa como se fechasse asas. A figura se desculpou por estar atrasada e disse que Squee havia dito que chegariam e o que estavam a realizar, então ela pensou que eles poderiam usar mais um lutador.
 

Gerrard só conseguia balançar a cabeça em descrença... Takara.
 

O grupo se movia lentamente por aquela região árida. Graças aos Jhovalls que eles pegaram “emprestado” da guarda mercadiana, a viagem seria menos penosa. Gerrard sentiu grande desgosto quando viu a bagunça que estava o alojamento das montarias. Era como se nunca tivessem sido treinados por ele. Todos estavam imensamente alegres por sentirem o gosto da liberdade outra vez, somente Takara, que talvez percebera que sua companhia incomodava, se manteve na retaguarda prestando ajuda quando solicitada, porém conversando pouco. Percebendo a solidão dela, Gerrard decidiu se aproximar e conversar. A melancólica garota tinha um pretexto para demonstrar tanta apatia por aquela jornada, afinal seu pai estava morto.
 

A resposta pegou Gerrard. Ele não conseguia acreditar que Starke estava morto. E o pior, segunda ela, ele fora morto por assassinos Ramosianos. Ao que parece, Gerrard não conhecia sobre esse grupo dentre os rebeldes, pois ele não demonstrou refutar o argumento dela, mas apenas se mostrou estarrecido com tudo aquilo. Mesmo com a morte do pai, Takara não estava de luto. Para Gerrard, ela simplesmente disse que sentia ódio e a vontade de encurralar o homem que matou Starke.
 

A comitiva seguia seu percurso sob o sol escaldante. Após atravessarem as planícies, achegaram-se a um vale, com terra e lodo preto. Mesmo os melhores mapas fornecidos pelos Cho-Arrim eram incertos quanto à localização de Ouramos. Enquanto caminhavam, repentinamente, Gerrard percebeu algo estranho. Nuvens de insetos pairavam no ar, a quietude e o odor desagradável de podridão e decadência pairou sobre os viajantes. 
 

Ele desembainhou sua espada, olhou para Tahngarth percebendo que não estavam mais sozinhos. O minotauro disse que alguém estava os observando. O grupo perguntou por quem, mas antes que ele respondesse uma figura sombria surgiu por detrás de uma árvore morta. A sombra emitiu um rugido e então, outras criaturas apareceram vestidos em qualquer coisa que sobrevieram a devastação da podridão.

 

 

O grupo se viu cercado de carniçais. Espadas cortavam cabeças, mas mesmo assim as criaturas continuavam avançando não demonstrando medo. Mesmo sendo criaturas que não racionavam e não se importavam em perecer, eles atacavam em sincronia. Dois deles atacaram um Jhovall que estava perto, abrindo espaço para que um terceiro atacasse o círculo que os viajantes fizeram.


Eles lutavam com vingança... eles lutavam como guardiões. 
 

De repente, Gerrard ouviu o grito de um Jhovall perto dele. A montaria de Fewsteem recebeu uma estocada no coração, vindo de uma espada enferrujada de um dos carniçais. Ele caiu no lodo e os atacantes começaram a afundá-lo na lama. Rapidamente, Gerrard partiu para ajudar o companheiro, mas nessa investida ele também perdeu sua montaria precisando da intervenção de Sisay para ajudar ambos.
 

Eles conseguiram conter a armada ao custo de suas montarias. Somente dois Jhovalls sobrevieram, mas eles estavam tão feridos que foi necessário que Tahngarth desse um golpe de misericórdia para por um fim a dor deles.
 

Após a batalha, o Comandante Benaliano percebera que os carniçais não lutaram simplesmente por lutar, porém como se fosse servos de um ser maior. É provável que eles fossem comandados por Ramos que, inconscientemente, projetava sua vontade sobre eles, pois eles foram seus soldados em vida e que morreram queimados com a queda. Mesmo sem sofrerem baixas ou graves ferimentos, as garras e dentes dos carniçais estavam infectadas com a água dos pântanos. No dia seguinte, Sisay e Fewsteem acordaram com febre.
 

Colocaram um pano molhado sobre a testa deles e, com o cair da noite e fogueiras acesas, eles se recuperaram da infecção. Nessa fogueira não havia lugar para contos de terror, mas o minotauro começou a mexer nas chamas com um galho e entoar um cântico de guerra Talruum. Olhando para Gerrard, Sisay percebeu que ele estava sorrindo. Foi somente após tudo isso que o comandante percebeu o quanto ele sentira falta disso tudo.

 

Bem, esse não era o mesmo pensamento dela.

 

“Saudade do que? Estar a milhas de distância de casa com nada para comer, a não ser rações secas, nada para fazer, a não ser esperar que consigamos sobreviver ao próximo dia sem desastres, nada para vestir, a não ser as roupas que estão guardadas que você não lavou durante a semana. Sisay enrugou o nariz. “Eu espero pelo deuses que amanhã encontremos um riacho. Você precisa de um banho.” (Máscaras de Mercádia, p. 239)


Apesar da bronca, o Benaliano insistiu com sua afirmação. Na verdade, o que tanto ele como Sisay, sentiam falta era de estarem reunidos com seus companheiros e partirem em busca... busca de alguma coisa. A aventura pela busca em si já era algo que os confortava. Estranho? Estúpido? Sim e muito, mas Sisay também teve esse pensamento, porém Gerrard compartilhava desse sentimento. A capitã parecia mais bonita, mais forte e mais sábia. Será que foi sua estadia em Rath que a deixou assim? Se intrometendo na conversa, Takara surgiu com seu discurso de ódio, falando – pela centésima vez – que era o ódio que fortalecia. Mas desta vez, Gerrard não bebeu do vinho dela. Ele disse que ela estava errada e que o ódio apenas o devorava por dentro. Deixando-o fraco, estúpido e feio. E com aquele velho discurso heróico, ele falou que era a esperança que o deixava forte e a diferença de Rath era que lá, você podia sobreviver de duas maneiras: ódio ou esperança, mas a esperança era a única que fazia heróis.


No segundo dia dentro da floresta, eles encontraram ruínas de uma larga torre de pedras. Muros cobertos de vinhas e musgo. Ilscaster chamou a atenção de Gerrard para os glifos cravados na pedra. Não havia dúvida. Eram símbolos Thran. Quem quer que tenha construído aquele lugar, sabia alguma coisa sobre os Thran. Essa não foi uma descoberta isolada, os dias seguintes eles encontraram mais ruínas e mais glifos. Tudo isso começou a ser uma paisagem comum naquela região, até o momento em que Sisay avistou alguma coisa. Havia alguma coisa estranha acerca daquelas muralhas.
 

Aquela cidade demonstrava claramente que algo terrível acontecera lá. As muralhas não estavam acabadas por causa do tempo, e sim por terem sido destruídas. Talvez a queda de Ramos? Ou talvez um Ramos figurativo? O mito de Ramos podia ser a descrição de algum evento histórico. Ela esfregou a ponta dos dedos e percebeu o pó branco. Em Dominaria, ela havia visto algo semelhante, algo relacionado a alguma explosão de calor... seu pensamento foi interrompido quando Ilcaster e Dabis – só para constar, descobri que Dabis era Icatiano - voltaram correndo após terem descoberto algo estranho.
 

A dupla havia encontrado uma pilha de excremento. E de quem quer que fosse aquilo, era enorme. O grupo se manteve em posição de alerta, agora que sabiam que criaturas vivas circundavam o lugar. Após um longo silêncio, Dabis correu para Gerrard com algo brilhante em mãos.

 

 

Uma powerstone!


Fina e não maior do que uma nódoa comparada com o cristal que energizava o Bons Ventos, mas mesmo assim ainda era uma powerstone reluzente com sua própria fonte de fogo interior. Ele indicou para Gerrard o local onde encontrara o artefato e, em segundos, o grupo estava no chão tentando achar mais powerstones. Eles desistiram quando perceberam que não encontrariam mais.
 

Uma coisa era certa, eles estavam no caminho certo.
 

O grupo continuou a caminhada pela selva sombria até que, o sol rompeu a mata e eles encontraram uma pequena construção. Era uma circunferência crava em rocha viva, quase mil milhas de distância do grupo, no centro, havia um grande círculo de areia elevada, pequeno, mas brilhava com a luz do sol. Nas rochas havia mais símbolos Thran que circundavam o círculo. No centro do círculo havia uma larga e achatada tábua parecida com um altar. No altar de pedra havia cinco cristais largos.
 

Ouramos.
 

Parecia claro que eles encontraram os cristais, os Ossos de Ramos. Mas Takara discordava, afinal, após todos esses anos era muito improvável que eles continuassem ali, intocáveis, a não ser que fossem protegidos por magia ou algo pior. Pensando sobre o que ela dissera, Gerrard estava selecionando quem desceria com ele, porém não houve tempo para isso. O jovem Ilcaster foi pego por vinhas que se contorceram em seus pés. Ele caiu no chão, puxou sua espada e tentou cortar as vinhas.


Sem sucesso.
 

Nem mesmo a espada de Gerrard conseguiu cortá-las porque parecia que eram feitas de vidro. Sangue jorrava. Outra surgiu e se enrolou ao redor de sua garganta como se fosse uma cobra. Um instante depois sua cabeça rolou até os pés de Gerrard.
 

O grupo se fechou em círculo e mais vinhas saltaram. Eles conseguiram rebatê-las com suas lâminas. Uma videira pegou os pés de Sisay, mas ela a soltou quando Gerrard ficou batendo na vinha. A próxima vítima fora Tallakaster. Sob seus pés, o sólido chão deu lugar ao lodo fervente e começou a afundá-lo. Gerrard o agarrou pelo braço, mas foi inútil. Se o Benaliano continuasse seria dragado para o fundo junto do marinheiro.
 

A situação pedia manobras evasivas. 
 

Retirada!
 

Enquanto eles se afastavam de Ouramos, figuras fantasmagóricas, repentinamente, os cercaram. Com aparência de humanos, elas tinham cabelos verdes e pele esverdeada e pálida. Longos e finos dedos se agitavam como se fossem ramos. Elas vestiam vestidos de folhas, galhos e vinhas, tricotados em bainhas que mal cobriam seus corpos magros.

 


Parece que os últimos defensores de Ramos apareceram...

 

 

 

 


Leandro "Arconte" Dantes (VIP STAFF Arconte)
Leandro conheceu o Magic em 1998 e, desde então, se apaixonou pelo Lore do jogo. Após retornar a jogar em 2008, se interessou por lendas, o que resultou por despertar a paixão pela escrita. Sempre foi mais colecionador do que jogador e sua graduação em Pedagogia pela Ufscar cooperou para que ele aprimorasse e desenvolvesse um estilo próprio. Autor de alguns contos, todos relacionados ao Magic, já traduziu o livro de Invasão e criou sua própria saga com seu personagem, conhecido como Arconte.
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Vendeta.

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Comentários

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aziszoo (19/09/2017 22:40:12)

Aguardamos o próximo capítulo!

FelipeBentoPereira (19/09/2017 12:58:34)

Esse capitulo foi muito bom, ansioso para os próximos...

VIP STAFF Arconte (17/09/2017 13:34:09)

É sempre bom saber que a galera começa a desbravar o Lore antigo do Magic.

davidbaron (17/09/2017 10:55:48)

Esses lores antigos são os melhores! Não conhecia muito de Mercadia mas estou achando bem legal.

Grato pela literatura matinal de domingo!

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