Máscaras de Mercadia
28/07/2017 10:00 / 1,752 visualizações / 2 comentários

 

 

Máscaras de Mercádia – Parte VII
 
 

Sisay estava tendo sonhos... sonhos da morte.

Ela jazia naquele convés ensanguentado, caída por cima do corpo de dois tritões que ela matara. A visão dela estava daquela forma onírica, sem conseguir distinguir o que era real e o que não era. Ela ouvia e enxergava, mas tudo era um sonho. Ela sabia que eram os sonhos que vem com a morte.
 
Tudo aconteceu muito rápido. Os tritões subiram ao convés e o massacre teve início. Para se defender, Sisay conseguiu um cutelo. Aquilo teria que bastar para enfrentar aquelas criaturas peroladas. Ao seu redor, corpos de marinheiros e tritões jaziam cortados. Um primeiro atacante veio para cima dela e ela fez o cutelo dançar. Ela o acertou no ombro fazendo surgir uma torrente de sangue. A besta tombou. Aproveitando a situação, ela pegou o tridente iridescente, o fincou no convés e abriu a barriga da besta tombada com seu cutelo.
 
Outro tridente surgiu por cima da criatura morta. Suas pontas distorcidas acertaram a lateral de Sisay. Sangue escorreu dela e ela caiu por cima de dois tritões mortos. Seu atacante pegou o tridente e moveu, para frente e para trás dentro da ferida dela. Ele a deixou lá para morrer, com três buracos abertos pelas pontas do tridente.
 
Foi um ato imparcial. Em momento algum a besta alterou sua feição.
 
Toda a sangrenta batalha se tornou um sonho. Aquelas criaturas, embora fossem belas ao olhar, não demonstravam compaixão. Aquilo, definitivamente, era uma bela batalha. As cores das armaduras e máscaras se mesclavam com verde, dourado, laranja e vermelho.
 
Ela estava delirando e sabia disso... esse era o delírio da morte.
 
Então, de repente, uma besta, tão larga quanto uma baleia, surgiu no convés. Era a mesma criatura que carregara Orim para as profundezas.
No último capítulo eu ilustrei com a carta de um kraken, mas acho que me equivoquei. Acredito que, talvez, a criatura seja essa aqui debaixo. Penso nisso porque se fosse um Kraken, ele não caberia no convés.
 

A tripulação recuou diante da fera. Mas o mais estranho era a mulher de cabelos encaracolados que a montava. Por um momento, a luta cessara. Tritões e humanos pararam de combater quando ouviram a voz dela.

“Filhos de Ramos, não lutem mais!”
 
Era Orim e ela falava na língua dos Cho-Arrim.
 
“Nós não somos assassinos, mas parentes. O arpão disparado que iniciou essa luta foi um erro, e o segundo foi devido ao pavor. Porém essas feridas estão curadas agora. Já morreram muitos de nós por causa daquele disparo. Que ninguém mais morra.” (Máscaras de Mercádia, p.177)
 
Sisay sorriu ao ouvir a voz de Orim. Aquele não era um sonho da morte, era real. A magia Cho-Arrim que Orim aprendera a ajudou a fazer aliados. Os tritões “desativaram” seu modo de batalha. Aqui aconteceu algo bastante interessante. Quando os tritões subiram o navio para a batalha, eles estavam em sua forma natural, isto é, com caudas, e parece que eles portavam máscaras para esconder o rosto. Poderiam ter sido confeccionados por eles mesmo ou surgiam do próprio poder de metamorfose dos tritões.
 
Talvez as máscaras fossem como essas.
 
 
Após o discurso, eles retiraram as máscaras e moldaram suas caudas transformando-as em pernas humanas.
 
As mortíferas bestas agora eram totalmente humanas em sua aparência.

Quanto a Sisay, a última coisa que ela vira foi o rosto da curandeira. Orim se ajoelhara ao lado da amiga e, de suas mãos, um brilho argentado e quente surgiu e o fogo da cura despertou.
 
* * * * *
 
Saprazzo era um vasto cone invertido que se estendia até a caldeira. Edifícios e ruas formavam anéis concêntricos em sua descida para as docas e baia. Casas geminadas em pedra polida com vista para o cone central. Algumas dessas habitações eram grandiosas e dignas, com tachos elaborados e desenhos sobre as portas. A maioria era simples, com plantas que se seguiam penduradas na fronte. A cidade fora construída dentro de uma caldeira vulcânica semi-submersa. Um semicírculo de montanhas de basalto rodeava a metade da metrópole, e uma grossa margem de pedra rodeava a outra metade. Juntos, montanha e parede mantinham o mar do lado de fora. O Facade entrou por um canal através da encosta e desceu até as docas do porto de Saprazzo.

Embora as ruas da cidade alta estivessem secas, estavam abaixo do nível do mar e cada edifício cheio de ar (a menção aqui não ficou muito claro, talvez o termo usado fosse para qualquer edifício que estivesse seco) tinha suas bases nas águas profundas. Aqui, nessa cidade, seus habitantes podiam caminhar pelas ruas ou nadar abaixo delas.
 

Para Hanna, toda aquela cidade que existia acima da água era um completo pesadelo. Desde pequena a navegadora possuía hidrofobia, o que era muito estranho para uma navegadora. Apesar das tentativas de ensinarem-na a nadar, o medo persistia. Ela evitou sempre que pôde as praias e cascatas que cercavam Tolaria. Somente após adentrar ao Bons Ventos foi que ela superou um pouco do medo, embora ela ainda fosse grata pelo fato de o navio navegar no ar e não na água. Devido a esses traumas de infância, ela decidiu ficar em terra seca.

Os Saprazzianos caminhavam – ou nadavam – pacificamente pelas ruas. Em total contradição com a tumultuada e árida cidade de Mercadia. Os tritões possuíam a tonalidade de pele azul e as mulheres tinham longos cabelos, presos com filigranas de prata. Aqueles que atacaram o Facade, após realizarem seus ritos fúnebres, caminhavam com Hanna, Orim e Sisay e o contingente mercadiano.
 
Se algum dia houvesse retorno a Mercádia, Saprazzo poderia facilmente ser uma nova Atlântida. Até o ar nessa cidade parecia ser líquido o que levou Hanna a parar algumas vezes, tentando recuperar o fôlego.
 
A comitiva foi levada para um amplo pavimento com pequenas quedas d´água. Eles seguiram seu caminho até chegarem a um par de impressionantes portas duplas. Quando adentraram a câmara, todos ficaram pasmos com o vislumbre do lugar. Conchas e criaturas do mar adornavam as paredes e, o que mais chamou a atenção, foi à enorme janela que cobria quase uma parede inteira, permitindo ver as criaturas marinhas nadando livremente.
 
Do canto da sala veio uma mulher vestida em um roupão azul cintilante. Mesmo sem ninguém ter dito, todos perceberam que ela era a líder da cidade. Seu rosto era alinhado e o tom prateada já tomava conta do cabelo, mas os passos eram de uma jovem garota.
 

Ela examinou o recém chegado grupo. Para os mercadianos houve uma saudação vazia e inexpressiva – para que lembrassem que não eram bem vindos lá - porém, quando ela caminhou em direção as três mulheres, um olhar de maravilha se apossou dela.

“Eu sou a Grande Vizir de Saprazzo. Eu saúdo vocês, em nome do meu povo,” e ao dizer essas palavras ela se curvou profundamente. As mulheres retribuíram o gesto enquanto os mercadianos abaixaram levemente suas cabeças. A conversa se iniciou e Orim assumiu o papel de intérprete da Vizir.
 
A vizir continuou com Orim traduzindo, “Vocês clamam virem de Mercádia, mas meu povo diz que você conhece a magia Cho-Arrim. Para mim, vocês não parecem nem Mercadianos nem Cho-Arrim.” Sisay replicou, “Nós não somos nativos de Mercádia, porém nós falamos com a autoridade do magistrado chefe. Nem somos nativos dos Cho-Arrim, mas somos seus amigos.” (Máscaras de Mercádia, p.181,182)
 
A vizir ficou espantada porque não era comum que mercadianos deixassem mulheres falarem por eles. Perplexa, ela caminhou em direção a Sisay e, gentilmente, pegou a mão dela. Com os olhos fechados, como se estivesse em algum transe, ela ficou ali perante Sisay imóvel feito estátua. Sem entender o que estava acontecendo, Sisay a olhava com curiosidade e, então pareceu que ela levara um choque. A Saprazziano saiu do seu transe e deu um passo para trás com um largo sorriso no rosto e, ergueu sua mão em saudação e começou a falar na língua natal de Dominária.

Ao que tudo indica, aquele ato deve ter sido alguma magia que a fez saber as origens de Sisay. O que quer que ela tenha feito, permitiu que ela conversasse no mesmo idioma e entendimento com as três. Após aquela “conexão”, Sisay respirava com dificuldade como se tivesse feito uma longa corrida. Mas foi com Orim que ela mais simpatizou, ao ponto de chamá-la de irmã, pois disse que ela tinha uma “alma familiar”. A vizir tocou um sino e, de repente, taças foram servidas para todos os visitantes, trazendo uma bebida revigorante e diferente de tudo o que eles já experimentaram. Um brinde foi proposto pela líder, mas exceto pelos mercadianos que não viram isso com bons olhos, as três amigas agora se sentiam mais a vontade na presença da Grande Vizir.
 
A Sprazziana olhou ao redor, então se direcionou a Sisay mais uma vez. “Vocês vieram em nome de Mercádia, apesar do nosso longo antagonismo com eles não ser segredo. Vocês vieram abordo de um navio de Rishada, e nós não amamos seus arpões e redes. Vocês vieram como amigos dos Cho-Arrim, e embora em tempos antigos fôssemos grandes aliados, faz séculos desde que nós conversamos com nossos irmãos da floresta. Mercadianos, Rishadianos, Cho-Arrim – que mensagem vocês poderiam trazer?”(Máscaras de Mercádia, pp.183,184)
 
Sisay não queria responder naquele lugar a pergunta da vizir. Ela disse que desejava conversar em um lugar de fé – uma grande estratégia, diga-se de passagem – e, de fato, havia diversos lugares de fé em Saprazzo, mas Sisay tinha um lugar em mente... ela desejava conversar no Templo da Matriz.
O Templo da Matriz se parecia mais com uma caixa de joias.
 
Construída em mármore oceânico vermelho, pedra calcaria branca e inserções de ônix o templo era decorado com cortinas de algas, almofadas de esponjas, arcos de baleia, corais espalhados pelas paredes e tapetes de algas tecidas. Ele era altamente guardado no centro do palácio real de Saprazzo. Em uma sala elevada feita em carmesim, residia a Matriz de Energia, dentro de uma grande caixa de vidro espesso.
 
A Matriz de Energia possuía um corpo principal com um único e enorme cristal branco, quase da altura de um homem. Todas as suas bordas exteriores tinham pedras menores em azul, verde, vermelho, branco e preto.
 
Como a Matriz acumulava energia e, devido a capturar luz por meio de suas gemas e cristais – acreditava-se que ela catalisava os feixes de luz – o artefato era mantido no escuro. Não havia luz naquela sala, pois, quando exposta a luz solar, a energia carregada poderia rapidamente fazer com que ela explodisse. Cada um olhou para ela de uma forma diferente: Hanna observava fascinada, o artefato o qual ela lera no Tomo Thran, Orim já mantinha um ar de adoração, pois ela aprendera que aquilo era a mente do Unificador, mas quanto aos Mercadianos eles a olhavam com avareza.
 
A Grande Vizir começou a contar a história do artefato lendário. Para o povo de Saprazzo, aquele dispositivo estava ligado à origem divina deles e o mito de Ramos. A voz dela afundou-se, vibrando através da sala em uma espécie de melodia rítmica.
 
“Ramos fora um grande rei e artífice, nascido no escuro de outro mundo. Alguns dizem que ele governara todo seu mundo, e as pessoas se curvavam perante seus pés. Ele percorreu através de montanhas, mares, pântanos e florestas. Mas um lugar escapava do seu reinado. À noite, ele contemplava as estrelas brilhantes no céu, e chorou porque ele jamais poderia alcançá-las, jamais poderia trazê-las para dentro de seu domínio de poder e sabedoria. Ramos procurou avidamente por uma maneira de alcançar as estrelas e essa tarefa cresceu obsessivamente. Cada noite ele sentava no topo da torre mais alta do seu castelo do mar e olhava para o céu da noite. Ele fez máquinas que podiam erguê-lo até as estrelas, mas todas falharam. (Máscaras de Mercádia, pp.185,186)
 
Já sabemos que o Mito de Ramos varia conforme cada cultura, porém essa versão de Saprazzo foi a que mais achei intrigante porque o retrata, a princípio, como um homem e não como uma criatura mística. A narrativa da vizir continuou dizendo que, após essa crescente ambição tomar conta de Ramos, seu povo começou a padecer devido a sua negligência. Ele ignorava seus deveres como governante e homens cruéis tomaram vantagem disso. Seus súditos, de todos os lugares até mesmo do mar, enviaram embaixadores na tentativa de fazê-lo desistir dessa futilidade, mas mesmo assim ele ainda não escutava.
Quanto mais crescia sua ambição, mais ele mergulhava nos segredos dos artífices – segredos há muito proibido. A lenda diz que estranhos homens se achegaram ao palácio, homens com túnicas brancas que geravam medo nos cortesões. Ramos os aceitara em seu santuário particular e mais e mais ele passava mais tempo com esses estranhos do que com seu povo.
 
Eu começo a chegar à conclusão que, talvez, não saberemos qual é a versão verdadeira do Mito de Ramos. Não até o fim da saga de Mercádia. Digo isso porque quanto mais vemos as narrativas dos distintos povos, mais percebemos que elas se mesclam com fatos ocorridos na Guerra dos Irmãos. É difícil distinguir o que é fato do que é mito. Essa versão de Saprazzo me lembra mais acontecimentos que ocorreram com Mishra. Sua ambição, a aliança com os sacerdotes de Gix e o abandono total do seu povo Fallaji. Conforme a Vizir disse, “A História está cheia de fatos sem muita verdade, e a mitologia está cheia de verdades sem muitos fatos.”
 
Pelo visto, todas as versões trazem uma mescla dos eventos da Guerra dos Irmãos, e os fatos se misturam a crença popular o que originou o Mito de Ramos.
 
Então, uma noite, no topo da torre do castelo, fumaça subia junto com o som de cantos e imprecações. Todo o povo se ajuntou para ver o que acontecia até mesmo o povo do mar e os piratas que estavam ancorados por perto. Do cume da torre, o próprio Ramos surgiu, com um corpo reluzente e brilhante como se ele queimasse por dentro. É dito que ele acoplou em seu corpo um dispositivo – a Matriz de Energia - e canalizou a luz da lua e das estrelas através dela.
 
Ramos saltou da torre e, ao invés de cair, ele começou a voar – mais uma vez isso remete a Guerra dos Irmãos e Mishra transformado pelos sacerdotes de Gix – e enquanto ele voava sua luz aumentava. Seu corpo cresceu em proporções titânicas e suas rajadas de luz alcançaram o povo da floresta, o povo do litoral, os piratas e o povo do mar. Segundo a Vizir, ele carregou os povos através do “vazio entre os mundos”, isto é, as Eternidades Cegas.
Não acredito que tenha sido dessa forma, mas aqui vemos claramente que se trata de uma transplanagem.
 
Seu triunfo se tornou em horror quando seu corpo começou a se rachar e trincar e eles caíram nesse novo mundo que era Mercádia. O navio pirata caiu em um arco através dos céus. O povo da floresta caiu em Rushwood, o povo do litoral caiu na baia de Rishada. O povo do mar caiu em Saprazzo – ou talvez fundaram Saprazzo. A queda fora tão monumental que abalou a base do mar, erguendo das suas entranhas o grande vulcão, o vulcão de Saprazzo.
Ramos caiu dos céus e a Matriz de Energia se desprendeu dele. Ele foi incinerado nesse evento, e na explosão o que sobrou de Ramos se dividiu em cinco partes.
 
 
 
“É dito que, se a Matriz de Energia se ajuntasse com os cincos ossos cristalizados de Ramos, que o próprio Ramos se ergueria outra vez e carregaria seu povo da floresta e do litoral e do mar de volta ao belo mundo que era antes. (Máscaras de Mercádia, p.188)
 
Agora era a parte difícil. Após ouvir essa narrativa emocionante e cheia de paixão, coube a Sisay a tarefa de tentar convencer a Grande Vizir. Primeiro, ela reconheceu que, apesar das pequenas diferenças, todas as narrativas tinham algum ponto em comum. Isso a Vizir não sabia. As ligações entre as crenças estavam nos fatos de que, todos vieram de outro mundo, eles eram parentes que chegaram nesse mundo nas costas de um deus que queimou pelos céus, que se seus artefatos fossem outra vez reunidos o povo que os uniu se uniria outra vez e que eles poderiam transformar o mundo em um verdadeiro e belo lugar.O rosto da Grande Vizir se alterou com uma alegria solene.
 
E para ratificar tudo o que foi dito, Sisay perguntou se a Vizir havia escutado os rumores do suposto retorno de Ramos. Sendo a resposta positiva, Sisay alegou que, de certa forma, Ramos retornara. Bem, não o próprio deus, mas sua alma – o Bons Ventos - mas a alma estava quebrada, pois não podia voar outra vez, a não ser que a Mente de Ramos (Matriz de Energia) se unisse com sua alma e seus ossos. De certa forma, a alegação de Sisay estava certa uma vez que, se ajuntasse todas essas partes o navio seria consertado e isso demonstrava que os contos dos Cho-Arrim, de Saprazzo e até mesmo aqueles narrados no Tomo Thran concordavam entre si e Ramos se ergueria mais uma vez.
 
O olhar de esperança que refletia na Vizir desapareceu como bolha de sabão.
 
“Não. Fé e mitos são bons até aonde podem, mas você não pode pedir para um povo sacrificar seu maior tesouro na fé. Você não pode nos pedir para desistir de quem nós somos para que nos unamos com nossos inimigos.” (Máscaras de Mercádia, p.189)
 
A Vizir estava decidida a não abrir mão da Matriz de Energia, não quando isso poderia beneficiar os mercadianos. Apesar disso, Sisay ganhara tempo para poder barganhar. Foi decidido que eles se encontrariam outra vez, no dia posterior, diante do conselho para que a causa fosse julgada.
 
Naquela noite, sem conseguir dormir, Orim caminhou quietamente pelas ruas. Caminhando pela rua, ela percebera que água era um elemento sempre presente. Pequenas cascatas e fontes podiam ser vistas em toda parte. Saprazzianos preferiam beber água a vinho, mas essa água deles era bastante diferente, pois fortalecia o bebedor. Ela se ajoelhou perto de uma fonte e se lembrou dos Cho-Arrim.
 
Com a memória, ela se lembrou de Cho-Manno e de que ele estava morto. Ela se lembrou daquela fatídica noite quando esteve com ele na Fonte de Cho e o jardim prateado. A paz sumiu dela e ela teve a impressão de ouvir a voz de Cho-Manno, era como se estivesse em transe ou quase dormindo, até que, subitamente, ela ouviu uma voz que quebrou o transe. “Ninguém vem aqui. Podemos discutir os planos aqui.”
 
A voz viera de um dos embaixadores de Mercádia, porém havia um Saprazziano com ele. Seu rosto estava na escuridão, mas Orim pôde ver a luz do luar iluminando sua pele azulada. Os homens estavam falando em Saprazziano, lento o suficiente para que Orim entendesse. Ela se escondou atrás de um pilar para escutar.
 
“Nós precisamos agir agora. Elas tem a vizir na palma da mão. Dê a elas mais alguns dias, e ela entregará a Matriz para as estrangeiras. Nosso mestre ficará muito implacável com esse resultado. (Máscaras de Mercádia, p.192)
 
Sem querer, Orim descobrira uma conspiração em andamento. Todo homem tem um preço e isso não era diferente entre os Saprazzianos. Com promessas de riqueza, os mercadianos conseguiram um traidor e aliado entre eles. O plano era utilizar a confiança que elas adquiriram com a Vizir para poder culpá-las. Como as três haviam demonstrado grande interesse na Matriz, diferente dos mercadianos que olhavam para o artefato com ar de tédio (parte do plano de Mercádia), seria extremamente fácil orquestrar e manipular a situação.
 
Orim estava prestes a correr e alertar Sisay, mas ela deve ter feito algum ruído que levou a conversa parar. O mercadiano se virou, ela tentou fugir, mas foi muito lenta. Da escuridão da noite, um porrete desceu e um forte som se fez soar. Sangue vertia do nariz dela e ela caiu no chão.
 
Águas escuras a cobriram e ela escutou mais nada.
 
Quando Orim despertou, ela estava cercada de lâminas e sangue. Ela se sentou diante dos tritões soldados que a cercava e ela percebeu que não estava mais naquele pátio escuro, mas sim em uma sala iluminada e ornamentada. Sem entender o que estava acontecendo e perguntando o que era tudo aquilo, um tritão surgiu e se apresentou como Comandante Oustrathmer e disse que ela estava no palácio real e estava presa.
 

Ela não conseguia pensar. Presa? Pelo o que?

A resposta a deixou sem fôlego. Orim estava sendo presa por assassinato. O comandante apontou para o lado dela e um guarda Saprazziano jazia morto lá, com a garganta cortada. E como se isso não fosse o suficiente, o comandante apontou para a caixa vazia e a acusou por conspiração.
 
A Matriz de Energia se fora!
 
O sangue fugiu do rosto de Orim, mas foi somente então que ela percebeu... o comandante era o conspirador que esteve na fonte com os mercadianos.
 
 

Leandro "Arconte" Dantes (VIP STAFF Arconte)
Leandro conheceu o Magic em 1998 e, desde então, se apaixonou pelo Lore do jogo. Após retornar a jogar em 2008, se interessou por lendas, o que resultou por despertar a paixão pela escrita. Sempre foi mais colecionador do que jogador e sua graduação em Pedagogia pela Ufscar cooperou para que ele aprimorasse e desenvolvesse um estilo próprio. Autor de alguns contos, todos relacionados ao Magic, já traduziu o livro de Invasão e criou sua própria saga com seu personagem, conhecido como Arconte.
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Comentários

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FelipeBentoPereira (11/08/2017 12:03:43)

estou viciado nessa serie!!
o lore do magic deveria ter um reconhecimento maior entre comunidade!
você começa a ler e já fica na expectativa dos próximos capítulos!!!
excelente trabalho...

SteelTrap (29/07/2017 17:54:56)

Excelente como sempre!